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Mesozoico Jurássico

Estegossauro: placas, espinhos na cauda e o mito do segundo cérebro

Com a cauda. Modelos de biomecânica calculam a velocidade e a força do golpe dos estegossauros, comparam Kentrosaurus e Miragaia e mostram o que o fóssil de um Allosaurus ferido revela sobre essa arma.

8 min de leitura
Reconstrução artística de um Stegosaurus stenops caminhando de perfil ao pôr do sol, com as placas no dorso e os quatro espinhos na ponta da cauda, em planície com coníferas e cicadáceas
Stegosaurus stenops na Formação Morrison, oeste dos Estados Unidos, no Jurássico Superior. Reconstrução artística. Arte de Prehistória™, criada com IA e revisada com base em evidências científicas.

A resposta está na cauda. Os estegossauros eram o grupo de dinossauros herbívoros com placas e espinhos ao qual pertence o Stegosaurus, e levavam na ponta da cauda espinhos ósseos capazes de ferir gravemente um predador. Há cerca de vinte anos existe prova fóssil de que essa arma acertava o alvo. O que mudou desde então foi a medida: modelos de biomecânica, que aplicam a física ao movimento do corpo, passaram a calcular a velocidade da cauda e a força do impacto.

Placas para exibir, cauda para golpear

Reconstrução artística comparando a armadura dorsal de três estegossauros do Jurássico Superior: Stegosaurus com placas largas em losango e quatro espinhos caudais, Miragaia com placas triangulares pareadas ao longo do pescoço longo e espinhos na metade posterior, e Kentrosaurus com placas baixas na frente que se transformam em espinhos pareados do meio do dorso até a cauda
Placas para exibir, cauda para golpear. Stegosaurus stenops (Formação Morrison, oeste dos Estados Unidos), Miragaia longicollum (Formação Lourinhã, Portugal) e Kentrosaurus aethiopicus (Formação Tendaguru, Tanzânia) viveram no mesmo intervalo do Jurássico Superior, entre 155 e 150 milhões de anos atrás. Reconstrução artística. Arte de Prehistória™, criada com IA e revisada com base em evidências científicas.

As placas no dorso do estegossauro não funcionavam como armadura. A hipótese mais aceita hoje é que serviam para exibição visual, debate que o artigo sobre o Estegossauro acompanha em detalhe. A cauda é outro caso: é a parte do corpo que o animal de fato usava contra um atacante.

Os espinhos são osteodermos, ossos que se formam na pele e não se ligam ao esqueleto. Em Stegosaurus stenops eram quatro, com 60 a 90 centímetros cada, projetados para os lados e para trás, e não para cima, como mostram muitas reconstruções antigas. O conjunto ganhou o apelido de thagomizer, nome nascido de uma tira de humor e adotado pelos paleontólogos nos anos 1990.

Quanto impacto cabia num golpe de cauda

Reconstrução artística de um Kentrosaurus aethiopicus na margem rasa de uma lagoa ao pôr do sol, com placas no pescoço e nos ombros, espinhos longos do dorso à cauda, coníferas e samambaias ao redor
Kentrosaurus aethiopicus, estegossaurídeo do Jurássico Superior, há cerca de 152 milhões de anos. Reconstrução artística. Arte de Prehistória™, criada com IA e revisada com base em evidências científicas.

Em 2011, o paleontólogo Heinrich Mallison publicou na revista Palaeontologia Electronica um modelo digital de Kentrosaurus aethiopicus, um estegossauro de cerca de 4,5 metros do Jurássico Superior da Formação Tendaguru, na Tanzânia. O objetivo era medir até onde a cauda se movia e com que velocidade.

Sem movimento de chicote, a ponta da cauda chegava a 5 a 14 metros por segundo; com chicote, o modelo alcançou 40 metros por segundo ou mais. A 20 e a 40 m/s, a pressão no ponto de impacto bastaria para fraturar ossos robustos mesmo de um grande terópode, o grupo dos dinossauros carnívoros bípedes. A cauda varria quase todo o semicírculo atrás do animal.

Esqueleto montado de Kentrosaurus aethiopicus no Museu de História Natural de Berlim, com placas no pescoço, espinhos longos no dorso e na cauda e um espinho no ombro
Esqueleto montado de Kentrosaurus aethiopicus no Museu de História Natural de Berlim, na Alemanha. O animal viveu no Jurássico Superior, onde hoje fica a Tanzânia. Foto: LoKiLeCh, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

A conclusão do estudo é que Kentrosaurus conseguia se defender com eficácia de um atacante isolado, e que derrubá-lo exigiria provavelmente a ação coordenada de mais de um predador. O ponto fraco era a frente do corpo, fora do alcance da cauda.

Há uma diferença anatômica a considerar. Kentrosaurus não tinha um thagomizer separado: as placas do pescoço e do dorso vão se transformando em espinhos longos do quadril até a ponta da cauda, sem divisão clara entre os últimos pares e os anteriores.

Miragaia: espinhos maiores, mas menos resistentes

Reconstrução artística de Miragaia longicollum em vista lateral, com pescoço longo, placas dorsais e espinhos caudais, à margem de um rio.
1 – Miragaia longicollum à margem de um rio na Formação Lourinhã, Portugal, durante o Jurássico Superior. Reconstrução artística. Arte de Prehistória™, criada com IA e revisada com base em evidências científicas.
Reconstrução artística de Miragaia longicollum de corpo inteiro, com pescoço longo, placas dorsais, espinhos caudais e patas robustas junto a um rio.
2 – Miragaia longicollum em ambiente da Formação Lourinhã, Portugal, durante o Jurássico Superior. Reconstrução artística. Arte de Prehistória™, criada com IA e revisada com base em evidências científicas.

Miragaia longicollum viveu no Jurássico Superior do atual Portugal, na Formação Lourinhã, e chama atenção pelo pescoço: pelo menos 17 vértebras cervicais, quatro a mais que qualquer outro estegossauro conhecido. Na cauda, tinha dois pares de espinhos alongados, cada um com cerca de 90% do comprimento do fêmur e de haste fina, segundo a descrição de Costa e Mateus publicada em 2019 na PLOS ONE.

Em 2024, Lategano, Conti e Lozar aplicaram a esse animal a mesma lógica de modelagem, em estudo publicado na Rivista Italiana di Paleontologia e Stratigrafia. A cauda de Miragaia atingia velocidades e pressões de impacto semelhantes às de outros tireóforos, o grupo dos dinossauros encouraçados. Mas os espinhos, embora maiores que os de Stegosaurus stenops, suportavam pior o esforço mecânico por causa da forma. Espinho maior não significava arma mais resistente.

Crânio de Stegosaurus stenops em vista lateral, com bico sem dentes na ponta do focinho, dentes pequenos em forma de folha e mandíbula alongada, exposto em um museu
Crânio de Stegosaurus stenops exposto no Museu de História Natural de Utah, em Salt Lake City. A cabeça pequena e baixa, com bico sem dentes, mostra por que a defesa do animal não estava na frente do corpo. Foto: Daderot, domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.

A cicatriz que prova o golpe

Os modelos dizem do que a cauda era capaz; o fóssil mostra que ela foi usada. Em 2005, Kenneth Carpenter, Frank Sanders, Lorrie McWhinney e Lowell Wood descreveram, num capítulo do livro The Carnivorous Dinosaurs, uma vértebra da cauda de Allosaurus com um pedaço arrancado do processo transverso, a projeção lateral do osso. A borda da lesão mostra osso remodelado, e um espinho de Stegosaurus se encaixa nela.

O mesmo trabalho examinou 51 espinhos de estegossauro, e cerca de um em cada dez tinha a ponta quebrada e depois cicatrizada. Não é um caso isolado: os animais perdiam a ponta do espinho com frequência e sobreviviam tempo bastante para o osso se refazer.

Esqueletos montados de Allosaurus fragilis atacando um Stegosaurus stenops, exposição do Museu de História Natural de Denver
Esqueletos de Allosaurus fragilis (DMNS 2249) e Stegosaurus stenops (DMNS 1483) montados em cena de ataque no Denver Museum of Nature and Science, remontagem supervisionada por Ken Carpenter em 1995. Foto: mrwynd, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

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Defesa, ou também disputa entre machos?

Nem toda lesão precisa ter vindo de um predador. Em abril de 2025, Evan Saitta e colegas divulgaram no bioRxiv um preprint, versão de um estudo publicada antes da revisão por pares, sobre a função dos osteodermos dos estegossauros. O trabalho analisa as placas de Hesperosaurus mjosi, parente próximo do Stegosaurus, e defende que elas se dividem em dois tipos, um largo e outro alto, que corresponderiam a machos e fêmeas.

A partir daí, os autores sugerem que parte das lesões encontradas em espinhos de estegossauros norte-americanos pode ter resultado de golpes de cauda trocados entre indivíduos da mesma espécie. No modelo que propõem, os osteodermos teriam surgido como reserva de minerais, sido aproveitados depois para a defesa e, por fim, também para a disputa entre machos e a exibição.

Até a publicação deste artigo, não localizamos versão do estudo revisada por pares, e uma proposta anterior de dimorfismo sexual em Hesperosaurus, de 2015, continua em debate. Por ora, o combate entre estegossauros é hipótese, não conclusão.

Três gêneros, três soluções

Colocados lado a lado, os três estegossauros mais estudados nesse ponto mostram que a cauda armada não seguiu um modelo único.

Infográfico comparando as armas da cauda de *Stegosaurus stenops*, *Kentrosaurus aethiopicus* e *Miragaia longicollum*, com locais e idades.
Comparação das armas caudais de três estegossauros do Jurássico Superior. A disposição exata de alguns espinhos de Kentrosaurus e Miragaia permanece incerta. Arte de Prehistória™, criada com IA e revisada com base em evidências científicas.

O que continua em aberto

Os valores de velocidade e força vêm de modelos digitais, que dependem de estimativas de músculos, cartilagens e flexibilidade das articulações, tecidos que não se fossilizam. São ordens de grandeza, não medições. E o peso de cada função segue sem resposta: quanto da cauda armada evoluiu contra predadores e quanto, se algo, serviu para disputas dentro da espécie.

Perguntas frequentes

Qual era a velocidade do golpe de cauda de um estegossauro?

No modelo de Kentrosaurus aethiopicus publicado em 2011, a ponta da cauda chegava a 5 a 14 m/s em movimento normal e a 40 m/s ou mais com efeito de chicote. A partir de 20 m/s, o impacto bastaria para fraturar ossos de um grande terópode.

Todo estegossauro tinha thagomizer?

Não da mesma forma. Stegosaurus stenops tinha quatro espinhos bem separados na ponta da cauda. Em Kentrosaurus, os espinhos se estendiam do quadril até a ponta, sem conjunto terminal distinto, e Miragaia tinha dois pares de espinhos longos e finos.

Existe fóssil que prove o uso da cauda contra predadores?

Sim. Uma vértebra da cauda de Allosaurus tem uma lesão cicatrizada na qual se encaixa um espinho de Stegosaurus, e cerca de 10% dos 51 espinhos examinados no mesmo estudo tinham a ponta quebrada e remodelada.

Os estegossauros usavam a cauda para brigar entre si?

É uma hipótese de um preprint de 2025, sem versão revisada por pares até agora, que atribui parte das lesões nos espinhos a combates entre indivíduos da mesma espécie. Não é consenso.

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