
Em 2010, um pequeno dinossauro chinês do tamanho de um corvo deixou de ser imaginado em cores e passou a ser conhecido em cores. O Anchiornis huxleyi foi o primeiro dinossauro a ter a coloração do corpo inteiro reconstruída a partir de evidências preservadas no próprio fóssil — corpo cinza e preto, asas claras salpicadas de escuro e uma crista avermelhada na cabeça.
Ele viveu há cerca de 160 milhões de anos, no que hoje é o nordeste da China, e é peça central em uma das discussões mais ativas da paleontologia: como os dinossauros deram origem às aves.
Um terópode do tamanho de um corvo
O nome vem do grego e significa aproximadamente “perto de ave”. O epíteto huxleyi homenageia Thomas Henry Huxley, o naturalista do século XIX que primeiro defendeu com força a ideia de que as aves descendem de dinossauros. A espécie foi descrita em 2009 pela equipe do paleontólogo Xu Xing, no Chinese Science Bulletin.
Era um animal pequeno. O exemplar usado na descrição original media cerca de 34 centímetros de comprimento total e pesava algo em torno de 110 gramas — menos que um pombo. Espécimes maiores conhecidos chegam perto de 60 centímetros, boa parte disso ocupada por uma cauda longa e emplumada.
O corpo era coberto de penas, e não apenas nos braços. Havia penas longas também nas pernas, o que faz do Anchiornis um dos chamados dinossauros de quatro asas, condição que ele compartilha com o Microraptor, do Período Cretáceo.
A Formação Tiaojishan, no nordeste da China
Todos os fósseis conhecidos vêm da Formação Tiaojishan, na província de Liaoning. É um depósito lacustre e vulcânico que preserva tecidos moles com detalhe excepcional — condição rara, que explica por que sabemos tanto sobre este animal e tão pouco sobre tantos outros.

Ele é contemporâneo, portanto, da fase final do Período Jurássico, quando os grandes saurópodes dominavam os continentes e os primeiros parentes próximos das aves já haviam surgido. Centenas de espécimes foram recuperados dessa formação, embora apenas alguns tenham sido descritos em detalhe na literatura científica.
Os melanossomos e a assinatura da cor
A cor de um animal extinto pode ser recuperada a partir de estruturas microscópicas chamadas melanossomos — pequenos corpúsculos que, nos animais vivos, armazenam o pigmento melanina dentro das células. O formato deles não é aleatório: melanossomos alongados, em forma de bastão, correspondem a tons pretos e cinza; melanossomos arredondados, em forma de salsicha curta, correspondem a tons avermelhados e castanhos.
Esses corpúsculos podem sobreviver à fossilização. Comparando a forma dos melanossomos preservados nas penas fósseis com a de penas de aves atuais, é possível inferir a cor de cada região do corpo.
Foi exatamente isso que a equipe liderada por Quanguo Li fez, em estudo publicado na Science em fevereiro de 2010. Os pesquisadores coletaram 29 amostras espalhadas por todo o corpo de um único espécime, catalogado como BMNHC PH828, e mapearam a coloração região por região.
As cores do Anchiornis
O resultado é um dos retratos mais completos que temos de qualquer animal do Mesozoico. A plumagem do corpo era escura, em tons de cinza e preto. A cabeça aparecia cinza mesclada de preto e avermelhado, e a crista tinha a frente acinzentada com o centro ferrugíneo.
Nas asas, o padrão era mais chamativo: penas de voo claras, salpicadas de preto e cinza, com coberteiras cinza formando uma faixa escura no ombro, algo comparável a uma dragona. As pernas eram cinza na canela e pretas nos pés.
Esse padrão não é decorativo por acaso. Combinações de alto contraste como essa, em aves atuais, costumam estar associadas a sinalização visual — exibição para parceiros ou rivais —, o que sugere que a plumagem do Anchiornis já cumpria funções sociais muito antes de existir voo batido.
Quatro asas, mas provavelmente sem voo
Ter asas não significa voar. Um estudo de Evan Saitta e Jakob Vinther, publicado na revista Palaeontology, examinou de perto a arquitetura das penas e encontrou diferenças decisivas em relação às aves modernas.
Nas aves atuais, as bárbulas — os ganchinhos microscópicos que unem as ramificações da pena — travam umas nas outras e formam uma superfície contínua e vedada, capaz de empurrar o ar. No Anchiornis, as penas de voo não tinham essa vedação, nem apresentavam as lâminas assimétricas típicas de penas aerodinâmicas. O conjunto era mais solto e desgrenhado, e deixava o ar passar.
O animal parece ter compensado essa limitação com quantidade: várias fileiras sobrepostas de penas longas nos braços, penas igualmente longas nas pernas e uma cauda emplumada. A conclusão dos autores é que ele não era capaz de voo batido, e no máximo planava.
O corpo revelado por fluorescência a laser
Em 2017, uma equipe liderada por Xiaoli Wang e Michael Pittman publicou na Nature Communications um estudo que usou fluorescência estimulada por laser em nove espécimes. A técnica faz certos tecidos brilharem sob luz de comprimentos de onda específicos, revelando contornos invisíveis a olho nu.
O que apareceu foi o contorno do corpo do animal, e não apenas o esqueleto: braços com patágio — a membrana de pele que liga o ombro ao pulso e dá à asa seu perfil contínuo —, pernas com musculatura concentrada na coxa, no formato que hoje chamaríamos de coxa de frango, e cauda fina.
Os pés trouxeram a surpresa mais concreta: almofadas plantares com sulcos entre elas e escamas reticuladas, praticamente idênticas às de aves atuais. Detalhes assim raramente fossilizam, e são o tipo de evidência que transforma reconstrução em observação.
A dieta preservada em pelotas gástricas
Em 2018, um estudo publicado na Scientific Reports descreveu algo inesperado em seis espécimes de Anchiornis: pelotas gástricas. São bolotas de material indigerível — ossos, escamas — que certas aves atuais regurgitam em vez de excretar, como fazem as corujas.
Um dos espécimes preservava ossos de lagarto; outros cinco continham sobretudo escamas de peixe com fragmentos ósseos. Isso indica duas coisas ao mesmo tempo: que o animal era um caçador oportunista, comendo peixes e pequenos vertebrados terrestres conforme a chance aparecia, e que o modo de digestão característico das aves já existia antes das aves.
Dinossauro ou ave? Uma fronteira instável
Aqui é preciso separar o que é consenso do que não é. Há consenso de que o Anchiornis é um terópode paraviano — isto é, pertence ao grupo que reúne dromeossaurídeos, troodontídeos e aves, próximo da raiz dessa ramificação. Ele integra a mesma onda de terópodes pequenos e emplumados que inclui os alvarezsaurídeos, linhagens que exploraram caminhos anatômicos muito diferentes a partir de um ponto de partida parecido.
A posição exata dentro desse grupo, porém, nunca se estabilizou. A descrição original de 2009 o tratou como um membro primitivo de Avialae, a linhagem das aves. O estudo de 2010 na Science o classificou como troodontídeo. Trabalhos posteriores propuseram agrupá-lo com Eosinopteryx e Xiaotingia em uma família própria, Anchiornithidae, situada na base de Paraves.
Essa instabilidade não é sinal de fraqueza da ciência, e sim do que acontece quando um fóssil cai exatamente sobre a fronteira entre dois grupos. Perto da origem das aves, as diferenças anatômicas entre “dinossauro com penas” e “ave primitiva” tornam-se pequenas o bastante para que a classificação mude conforme o método e os caracteres escolhidos.
Um fóssil excepcional pelo que preservou
O valor científico deste animal está menos no que ele era e mais no quanto dele sobreviveu. Cor, contorno do corpo, membrana da asa, almofadas dos pés, conteúdo estomacal — é uma quantidade de informação que quase nenhum outro dinossauro oferece.
Somadas, essas evidências mostram um animal que já tinha plumagem colorida e padronizada, digestão de tipo aviano e pés praticamente de ave, mas que ainda não voava. A ordem em que essas características aparecem no registro fóssil contraria a intuição de que tudo isso teria surgido junto, a serviço do voo. No caso do Anchiornis, quase todo o pacote veio antes.
Perguntas frequentes
O Anchiornis era uma ave?
Não pelo entendimento atual. Ele é classificado como um terópode paraviano, no grupo que inclui as aves e seus parentes mais próximos, mas fora do grupo das aves propriamente ditas na maioria das análises recentes. A posição exata continua em discussão.
O Anchiornis conseguia voar?
Provavelmente não. As penas de voo não tinham as bárbulas travadas nem a assimetria que tornam a asa das aves modernas capaz de gerar sustentação eficiente. Planar é a hipótese mais aceita, e mesmo isso com limitações.
Como os cientistas sabem de que cor ele era?
Pela forma dos melanossomos preservados nas penas fósseis. Essas estruturas microscópicas armazenam melanina e têm formatos distintos conforme o pigmento: alongados para pretos e cinzas, arredondados para avermelhados. Comparando com penas de aves atuais, foi possível mapear a cor por região do corpo.
Qual o tamanho do Anchiornis?
O espécime da descrição original tinha cerca de 34 centímetros e 110 gramas. Exemplares maiores conhecidos chegam a aproximadamente 60 centímetros de comprimento total, boa parte disso em cauda.
Por que ele tinha penas se não voava?
Porque as penas surgiram antes do voo e serviam a outras funções: isolamento térmico e sinalização visual, entre elas. O padrão de alto contraste das asas do Anchiornis aponta justamente para exibição, não para aerodinâmica.
Fontes científicas consultadas
- Li, Q. et al. (2010). Plumage Color Patterns of an Extinct Dinosaur. Science.
- Wang, X. et al. (2017). Basal paravian functional anatomy illuminated by high-detail body outline. Nature Communications.
- Zheng, X. et al. (2018). Exceptional dinosaur fossils reveal early origin of avian-style digestion. Scientific Reports.
- Saitta, E. T. & Vinther, J. (2018). Additional information on the primitive contour and wing feathering of paravian dinosaurs. Palaeontology.