
Nenhum mamute voltou à vida, e o prazo para isso acaba de ser adiado. A Colossal Biosciences, empresa americana que prometia um filhote para 2028, agora fala em início dos anos 2030. O número de genes que ela pretende editar no genoma de um elefante-asiático também subiu: era de cerca de 60, hoje passa de 150.
Essa é a resposta curta. A longa é mais interessante, porque o mamute-lanoso (Mammuthus primigenius) é provavelmente o animal extinto que a ciência conhece melhor. Sabemos sua altura, o que comia, quando cada população desapareceu, quantos indivíduos fundaram a última delas e até quais genes estavam ativos nos músculos de um mamute no dia em que ele morreu, há 39 mil anos.
O que era, afinal, um mamute-lanoso

O mamute-lanoso surgiu no nordeste da Sibéria entre 800 mil e 600 mil anos atrás e se espalhou por toda a Eurásia e pela América do Norte. Segundo o Museu de História Natural de Londres, chegava a 3 a 3,5 metros de altura no ombro e pesava de quatro a seis toneladas, dependendo do sexo — porte de um elefante-africano grande, não mais que isso.
Ele era uma espécie dentro de um gênero antigo e diverso. Antes dele vieram Mammuthus meridionalis, que comia arbustos e árvores, e Mammuthus trogontherii, o mamute-das-estepes, ambos maiores, com cerca de quatro metros. Na América do Norte, o Mammuthus columbi seguiu outro caminho. Também houve mamutes anões insulares, como o Mammuthus exilis, da Califórnia, com 1,7 metro.
Uma confusão comum vale desfazer aqui: mamute não é mastodonte. São grupos diferentes de proboscídeos, separados há milhões de anos, com dentes e dietas distintos. O mamute é parente muito mais próximo do elefante-asiático vivo do que de qualquer mastodonte.
A anatomia construída para o frio

Quase tudo no mamute-lanoso reduz perda de calor. As orelhas eram pequenas, uma fração das do elefante-africano; a cauda, mais curta que a dos parentes vivos. O corpo era coberto por pelo espesso e castanho-escuro, sobre uma camada de gordura. A cabeça tinha perfil abaulado, e o dorso descia em direção à traseira.
As presas cresciam curvadas em duas dimensões, num arco espiralado que, em machos velhos, podia quase cruzar as pontas. Serviam para afastar neve, disputar fêmeas e, provavelmente, exibição. A ponta da tromba trazia duas projeções alongadas, uma espécie de pinça, visível nos exemplares congelados.
O detalhe mais surpreendente é a idade dessas adaptações. Um estudo publicado na Nature em 2021 mostrou que variantes genéticas ligadas a crescimento de pelo, termorregulação, depósitos de gordura e tolerância ao frio já estavam presentes num mamute de um milhão de anos — muito antes de o mamute-lanoso existir como espécie. O frio não moldou o mamute de última hora: ele já vinha adaptado de muito antes.
A estepe dos mamutes, um ambiente que não existe mais

O mamute não vivia numa paisagem de gelo, e sim num bioma que hoje não tem equivalente: a estepe dos mamutes, uma pradaria fria e seca de gramíneas, ciperáceas e ervas que ia da Península Ibérica ao Yukon. Era um ambiente produtivo, capaz de sustentar rebanhos grandes, e os mamutes ocupavam justamente as áreas bem vegetadas, longe de neve profunda.
Essa é a chave para entender o desaparecimento deles. Um animal de seis toneladas que come capim precisa de muito capim. Quando a estepe seca virou outra coisa, o mamute ficou sem chão — literalmente. O mesmo vale para os outros gigantes do intervalo, incluindo o tigre-dente-de-sabre, que dependia de presas grandes.
Quando o mamute desapareceu — e onde resistiu mais tempo

A extinção do mamute não foi um evento único. Foi um recuo progressivo, com populações insulares sobrevivendo milênios depois do fim continental, no meio do Holoceno — a época em que já existiam agricultura e cidades no Oriente Próximo.

O caso da Ilha de São Paulo é a extinção pré-histórica mais bem datada que existe. A equipe liderada por Russell Graham, da Penn State, combinou quatro linhas independentes de evidência em sedimentos lacustres e publicou o resultado na PNAS, em 2016: a causa provável foi falta de água doce, à medida que a ilha encolhia com a subida do mar e a própria pressão dos mamutes sobre a vegetação acelerava a erosão.
Foi o clima ou foi a caça?

A disputa entre clima e caça humana é antiga. Em 2021, um estudo publicado na Nature, liderado por Yucheng Wang e Eske Willerslev, atacou a questão por um caminho novo: DNA ambiental extraído de amostras de solo ártico coletadas ao longo de vinte anos, que registra plantas e animais sem depender de encontrar ossos.
O quadro que saiu daí aponta para o clima. O aumento da precipitação transformou pradaria em brejo e pântano, e o alimento do mamute simplesmente sumiu. Segundo os autores, os modelos não encontram efeito humano detectável sobre essas populações.
O estudo é forte, mas não encerra o assunto. Ele descreve bem o Ártico, e o Ártico não é o mundo todo; em outras regiões a caça pode ter pesado mais, e as duas explicações não se excluem — uma população acuada pela perda de habitat resiste menos a qualquer pressão adicional. O que o registro mostra com clareza é que mamutes e humanos conviveram por milhares de anos antes do fim.

Os últimos mamutes da Ilha de Wrangel
A Ilha de Wrangel, no Ártico siberiano, ficou isolada quando o mar subiu, há cerca de 10 mil anos, prendendo ali um grupo pequeno de mamutes. Em junho de 2024, Marianne Dehasque e Love Dalén, do Centre for Palaeogenetics, publicaram na Cell a leitura de 21 genomas — 14 da ilha e 7 do continente — cobrindo os últimos 50 mil anos.
Os números impressionam. A população de Wrangel descendia de no máximo oito indivíduos e cresceu para 200 a 300 animais em cerca de vinte gerações. Ficou endogâmica, perdeu diversidade genética e acumulou mutações deletérias — e, ainda assim, permaneceu demograficamente estável por seis mil anos.
Isso derruba a explicação mais intuitiva. Os mamutes de Wrangel não definharam num colapso genético lento e anunciado: eles estavam de pé até o fim, e então desapareceram. Os autores concluem que algo súbito os eliminou, e esse algo continua desconhecido.
O que o DNA antigo revelou
O mamute detém o recorde do DNA mais antigo já sequenciado. Em fevereiro de 2021, a equipe de Tom van der Valk e Love Dalén publicou na Nature genomas obtidos de três dentes do permafrost siberiano: Krestovka, com 1,2 milhão de anos, Adycha, com mais de um milhão, e Chukochya, com cerca de 700 mil.
A surpresa foi Krestovka. O dente pertencia a uma linhagem desconhecida, e a comparação mostrou que o mamute-colombiano da América do Norte era um híbrido: cerca de metade do genoma vinha dessa linhagem e metade do mamute-lanoso, resultado de um cruzamento ocorrido há uns 420 mil anos.
É o mesmo tipo de análise que vem reescrevendo histórias inteiras da megafauna — como aconteceu com o guepardo americano, que o DNA antigo revelou não ser guepardo. Ossos dizem como o animal era; genomas dizem de onde ele veio.
O RNA de Yuka: os genes que ainda estavam ligados
Em novembro de 2025, um trabalho publicado na Cell por Emilio Mármol-Sánchez e colegas fez algo que se considerava improvável: recuperou RNA de dez mamutes congelados, incluindo Yuka, um jovem de 39 mil anos. É o RNA mais antigo já sequenciado.
A diferença entre DNA e RNA importa. O DNA é o catálogo completo de genes que o animal carregava; o RNA é o registro de quais genes estavam efetivamente ligados naquele tecido, naquele momento. No músculo de Yuka apareceram genes de contração muscular e de resposta metabólica ao estresse, além de microRNAs reguladores — um instantâneo fisiológico dos últimos momentos de um animal que morreu na última Era do Gelo, o capítulo final do Cenozoico, a era dos mamíferos.
A promessa de trazer o mamute de volta
Aqui entra a parte que virou manchete. A Colossal Biosciences, fundada em 2021 pelo geneticista George Church e pelo empresário Ben Lamm, propõe produzir um animal com as características do mamute-lanoso e soltá-lo na tundra.
O método não é clonagem. Clonar exigiria uma célula com núcleo intacto, e nenhum mamute congelado ofereceu isso — o que sobra são fragmentos de DNA. A rota escolhida é outra: partir do elefante-asiático, o parente vivo mais próximo, e editar seu genoma com variantes identificadas no genoma do mamute, produzindo células-tronco, depois embriões, depois um filhote.
Os marcos alcançados até agora são reais, mas parciais. Em março de 2024 a empresa anunciou as primeiras células-tronco pluripotentes induzidas de elefante-asiático. Em março de 2025 apresentou o camundongo lanoso: oito edições em sete genes, entre eles FGF5, MC1R e FZD6, escolhidos a partir da comparação entre genomas de mamutes e elefantes, que produziram pelo longo, claro e encaracolado. Na primavera de 2025 veio o anúncio do lobo-terrível, com edições em 14 genes.
O cronograma, esse, escorregou. Em agosto de 2026, Ben Lamm disse à revista Time que agora trabalha com o início da década de 2030, e que a lista de genes a editar cresceu de cerca de 60 para algo em torno de 150 — número que continua subindo.
Por que o animal que nascer não será um mamute
A objeção central dos críticos não é técnica, é conceitual. Um elefante-asiático com 150 edições continua sendo um elefante-asiático geneticamente modificado, com alguns traços de mamute. O genoma do mamute tem milhões de diferenças em relação ao do elefante, e não se sabe quais delas, além das ligadas a pelo e gordura, fazem um mamute ser um mamute.
A paleobióloga Tori Herridge resume a crítica com uma imagem que ficou conhecida: um mamute não é um elefante de casaco de pele. A ecóloga Jacquelyn Gill aponta o mesmo ponto por outro ângulo — sem células intactas, não há de onde “trazer de volta” coisa alguma. O paleogeneticista Nic Rawlence, da Universidade de Otago, e o biólogo Vincent Lynch, da Universidade de Buffalo, foram mais duros com o caso do lobo-terrível: para eles, foram lobos-cinzentos editados apresentados como ressurreição de uma espécie.
Há ainda a objeção do bem-estar animal. A bióloga Jeanne Loring, do Instituto Scripps, alerta para o risco de sofrimento dos animais envolvidos. A gestação do elefante-asiático dura cerca de 22 meses, e a espécie é ameaçada de extinção — usar fêmeas dessa espécie como barriga de aluguel para um experimento não é decisão trivial.
O argumento do permafrost
A Colossal justifica o projeto com um argumento ecológico: rebanhos de grandes herbívoros pisoteariam o musgo e a neve da tundra, favorecendo o retorno da pradaria seca, que reflete mais luz e mantém o solo mais frio, travando a liberação de carbono do permafrost. A ideia vem dos experimentos do Parque Pleistoceno, na Sibéria.
É uma hipótese plausível e não um resultado estabelecido. Ecólogos questionam se a soltura de híbridos numa tundra que mudou de clima, de vegetação e de fauna reproduziria o efeito previsto, e em que escala de tempo — falar em rebanhos capazes de alterar o balanço de carbono do Ártico significa falar em dezenas de milhares de animais, não em alguns filhotes.
O que “voltar à vida” quer dizer
Se a pergunta é se o mamute-lanoso vai voltar, a resposta honesta hoje é: não do jeito que a expressão sugere, e não no prazo que foi anunciado. O que pode nascer na próxima década é um elefante peludo adaptado ao frio, o que já seria uma proeza de engenharia genética — mas não é a mesma coisa.
Há, porém, um sentido em que o mamute já voltou. Conhecemos a demografia da última população dele melhor do que conhecemos a de muitas espécies vivas; sabemos quais genes estavam ativos no músculo de um indivíduo específico; lemos DNA de um dente de 1,2 milhão de anos. O animal não está de volta, mas a biologia dele está — e isso foi conquistado no permafrost e no laboratório, não numa promessa de data.
O mamute-lanoso conviveu com seres humanos?
Sim, por milhares de anos. Mamutes aparecem em pinturas rupestres europeias e em sítios arqueológicos com ossos trabalhados. Os últimos mamutes da Ilha de Wrangel ainda estavam vivos quando as pirâmides do Egito já haviam sido construídas.
Mamute e mastodonte são a mesma coisa?
Não. São dois grupos distintos de proboscídeos, separados há milhões de anos. Os dentes denunciam a diferença: os do mamute têm lâminas paralelas, próprias para triturar capim, enquanto os do mastodonte têm cúspides cônicas, adequadas a folhas e galhos. O mamute é parente muito mais próximo do elefante-asiático atual.
Existiu mamute no Brasil?
Não. Os mamutes ocuparam o Hemisfério Norte e não chegaram à América do Sul. O grande proboscídeo do Pleistoceno brasileiro era outro: Notiomastodon platensis, um gonfotério. Um estudo de 2025 coordenado pela UFRJ, publicado no Journal of South American Earth Sciences, indica que ele e outros gigantes da megafauna brasileira desapareceram de forma gradual, entre 7.800 e 3.400 anos atrás.
É possível clonar um mamute?
Com o que existe hoje, não. Clonagem exige uma célula com núcleo íntegro, e nenhum exemplar congelado forneceu isso — o permafrost preserva fragmentos de DNA, não células funcionais. Por isso os projetos atuais editam o genoma de um elefante-asiático em vez de copiar o de um mamute.
Quando morreu o último mamute?
Pelo que se sabe, há cerca de 4 mil anos, na Ilha de Wrangel. Antes disso, a população da Ilha de São Paulo, no Alasca, havia desaparecido por volta de 5.600 anos atrás, e as populações continentais, há aproximadamente 10 mil anos.
Um mamute recriado poderia viver na natureza hoje?
Esse é o ponto mais frágil do projeto. A estepe dos mamutes não existe mais, e o Ártico atual é mais úmido e arbustivo do que aquele em que a espécie evoluiu. Um animal solto ali enfrentaria um ambiente diferente do que sua biologia foi construída para ocupar, e isso não é um detalhe operacional — é a pergunta central.
Fontes científicas consultadas
- Dehasque, M. et al. Temporal dynamics of woolly mammoth genome erosion prior to extinction. Cell, 27 de junho de 2024.
- van der Valk, T. et al. Million-year-old DNA sheds light on the genomic history of mammoths. Nature, 17 de fevereiro de 2021.
- Mármol-Sánchez, E. et al. Ancient RNA expression profiles from the extinct woolly mammoth. Cell, novembro de 2025.
- Wang, Y. et al. Late Quaternary dynamics of Arctic biota from ancient environmental genomics. Nature, 20 de outubro de 2021.
- Graham, R. W. et al. Timing and causes of mid-Holocene mammoth extinction on St. Paul Island, Alaska. PNAS, 2016.
- Natural History Museum, Londres. Were all mammoths woolly?
- Centre for Palaeogenetics / Universidade de Estocolmo. Scientists recover 40,000-year-old mammoth RNA, novembro de 2025.
- Time. The Woolly Mammoth’s Comeback Is Taking Longer Than Expected, 24 de agosto de 2026.
- NPR. Colossal Biosciences breeds controversy while trying to revive mammoths, 4 de março de 2026.
- Science News Explores. Can this woolly mouse help bring back extinct mammoths?, março de 2025.
- UFRJ / Conexão UFRJ. Pesquisa redefine história da megafauna no Brasil, janeiro de 2025.