
O Anak Krakatau, vulcão do Estreito de Sunda, entre as ilhas de Java e Sumatra, está na fase mais intensa de atividade desde que seu alerta foi elevado, em 2 de julho de 2026. Entre a noite de 4 e a madrugada de 6 de setembro, produziu uma erupção contínua de cerca de 25 horas, com cinza lançada a até 15 quilômetros de altitude. O nível de alerta permanece em III, o segundo mais alto da escala indonésia, com raio de exclusão de 3 quilômetros.
Não há registro de mortes. O maior impacto foi sobre a aviação: oito aeroportos fecharam, mais de 1.500 voos foram cancelados ou atrasados e mais de 270 mil passageiros ficaram retidos, num país em que o transporte aéreo liga milhares de ilhas. Os estrondos da erupção foram ouvidos a até 700 quilômetros de distância.
Vinte e cinco horas de erupção contínua
A erupção começou às 23h07 de sexta-feira, 4 de setembro, e só terminou à 00h04 de domingo, 6, segundo o Centro de Vulcanologia e Mitigação de Desastres Geológicos da Indonésia, o PVMBG. Cerca de quatro horas depois, uma nova explosão de tipo estromboliano durou trinta segundos — o padrão de pulsos curtos que caracteriza o vulcão.
A cinza se dividiu em duas plumas com destinos diferentes. A que seguiu para leste alcançou cerca de 6,1 quilômetros de altitude e atingiu Jacarta, Banten e o oeste de Java. A que seguiu para oeste subiu a aproximadamente 15 quilômetros e se espalhou por Banten, Lampung, Bengkulu e o sul do Estreito de Sunda. A agência meteorológica indonésia emitiu 18 avisos de risco para a aviação.
O fechamento atingiu, entre outros, o Soekarno-Hatta, principal aeroporto do país, e o Halim Perdanakusuma, ambos na região de Jacarta. Quatro deles seguiram fechados até a tarde de segunda-feira. Segundo o Ministério dos Transportes da Indonésia, o acumulado desde 5 de setembro chegou a 1.558 voos cancelados ou atrasados e mais de 270 mil passageiros retidos, dos quais mais de 900 voos só no Soekarno-Hatta. Cinza vulcânica é abrasiva e derrete dentro das turbinas, onde volta a se solidificar — por isso a resposta padrão é fechar o espaço aéreo, e não desviar rotas.
O vulcão não parou

Depois do episódio de 25 horas, a atividade continuou em pulsos. O boletim do Badan Geologi de 7 de setembro registrou, em 24 horas, três sismos de erupção, nove de explosão, 93 de baixa frequência, 98 híbridos e quatro tremores contínuos. Na madrugada de 9 de setembro, às 00h47, houve nova erupção, com amplitude máxima de 51 milímetros e 28 segundos de duração — a sexta em sete dias.
O órgão avalia que a probabilidade de novas erupções nos próximos períodos permanece alta, e mantém as recomendações: ninguém dentro do raio de 3 quilômetros, atenção ao lançamento de rochas incandescentes e à queda intensa de cinza, e uso de máscara nas áreas afetadas.
Siti Sumilah Rita Susilawati, que dirige o PVMBG, pediu que os moradores do litoral de Banten e Lampung mantenham a rotina e ignorem boatos de tsunami que circulam a cada erupção. O pedido não é retórico, e a razão está na história recente do próprio vulcão.
O vulcão que nasceu de uma catástrofe
A reconstrução considerou os registros da Smithsonian Institution e evidências de correntes piroclásticas quentes atravessando o mar. Estudo científico

O nome significa “filho do Krakatoa”, e é literal. Em 1883, a erupção do Krakatoa destruiu dois dos três cones da ilha — Danan e Perbuwatan — e deixou apenas o Rakata. O colapso da câmara magmática formou uma caldeira, e correntes piroclásticas percorreram 40 quilômetros através do Estreito de Sunda até a costa de Sumatra. Morreram mais de 36 mil pessoas, a maioria nos tsunamis que varreram os litorais de Java e Sumatra.
Menos de meio século depois, um novo cone começou a se erguer dentro daquela caldeira submersa. O Anak Krakatau emergiu do mar e vem entrando em erupção com frequência desde 1927. É um vulcão jovem no sentido literal: tem menos de cem anos, e está sendo construído diante de observadores humanos — o que o torna um dos laboratórios naturais mais valiosos da vulcanologia.
Essa juventude é também o problema. Um cone recém-formado é feito de material solto, mal consolidado, empilhado depressa sobre a borda de uma caldeira. Encostas assim desabam.
O colapso de 2018, e por que se fala em tsunami
Foi o que aconteceu em 22 de dezembro de 2018. O flanco sudoeste do Anak Krakatau desabou no mar durante uma erupção, mobilizando menos de 0,25 quilômetro cúbico de material. O deslizamento gerou um tsunami sem qualquer terremoto associado — e, portanto, sem o sinal sísmico que os sistemas de alerta da região usavam para disparar avisos.
As ondas atingiram o litoral no escuro, sem aviso. Um levantamento de campo publicado na revista Natural Hazards and Earth System Sciences registrou profundidade de fluxo de até 6,6 metros em Banten e altura máxima de invasão de 14,9 metros em Sumur. O balanço foi de 437 mortos, 31.942 feridos e 10 desaparecidos.
É por isso que cada nova erupção reacende o medo, e é por isso que as autoridades insistem no assunto: o risco de colapso de flanco existe e é monitorado, mas rumor de tsunami iminente sem base em boletim oficial atrapalha a resposta real. A diferença entre uma coisa e outra é o que o PVMBG está tentando comunicar.
Vulcanismo, em escala geológica
Uma erupção como a desta semana é enorme na escala humana e minúscula na escala do tempo profundo. A comparação ajuda a entender por que o vulcanismo aparece tanto na história da vida na Terra.
Os episódios que a geologia associa a crises biológicas globais não são erupções de dias, mas províncias magmáticas que despejaram lava por dezenas ou centenas de milhares de anos, alterando a composição da atmosfera e a química dos oceanos. O vulcanismo siberiano é o principal suspeito da extinção que encerra o período Permiano e a Era Paleozoica, há cerca de 252 milhões de anos, a maior extinção em massa já registrada. As erupções do Decão, na Índia, são discutidas como fator agravante no fim do período Cretáceo, há 66 milhões de anos, ao lado do impacto de Chicxulub — o peso relativo de cada causa ainda é objeto de debate entre pesquisadores.
Nada disso está em jogo no Estreito de Sunda hoje. O ponto é de escala: o mesmo processo que fecha oito aeroportos por alguns dias, sustentado por tempo geológico, já reorganizou a biosfera mais de uma vez.
Um arquipélago sobre uma zona de subducção
A Indonésia tem mais vulcões ativos que qualquer outro país, e a razão é tectônica: a placa australiana mergulha sob a placa da Sonda, e a água carregada por essa crosta oceânica rebaixa o ponto de fusão do manto acima dela, gerando magma. O Estreito de Sunda fica exatamente sobre esse alinhamento.
Essa mesma geologia moldou a história natural da região de formas que vão além do risco. As ilhas indonésias ficaram isoladas umas das outras por mar profundo durante milhões de anos, e o isolamento produziu casos notáveis de evolução insular — entre eles o Homo floresiensis, o hominínio de pequeno porte da ilha de Flores.
O que observar nos próximos dias
O indicador a acompanhar não é o tamanho da coluna de cinza, e sim o nível de alerta e a sismicidade divulgados pelo Badan Geologi. Uma elevação ao nível IV significaria expectativa de erupção maior e ampliação da zona de exclusão. A manutenção do nível III, como está agora, indica atividade intensa e contínua, mas dentro do que já vinha sendo monitorado desde julho.
Para quem tem viagem marcada para a Indonésia, a orientação prática é conferir a situação do aeroporto no dia: os fechamentos por cinza são decididos com poucas horas de antecedência e reabertos com a mesma rapidez, conforme a direção do vento.
O Anak Krakatau pode causar um tsunami como o de 2018?
O risco existe e é monitorado, porque o cone é jovem e feito de material pouco consolidado. Mas risco monitorado não é previsão. Em setembro de 2026, o PVMBG mantém o alerta em nível III e pede explicitamente que a população ignore boatos de tsunami que não venham de boletim oficial.
Qual a diferença entre o Krakatoa e o Anak Krakatau?
São vulcões distintos no mesmo lugar. O Krakatoa foi destruído pela própria erupção de 1883, que deixou uma caldeira submersa. O Anak Krakatau é o cone novo que passou a crescer dentro dessa caldeira e emergiu do mar, com erupções frequentes desde 1927.
Cinza vulcânica é perigosa para quem está longe do vulcão?
Para a saúde, o risco maior é para quem está sob a queda direta de cinza — daí a recomendação de máscara e de reduzir a exposição ao ar livre. Para a aviação, o alcance é muito maior: partículas em suspensão a milhares de metros de altitude danificam turbinas a centenas de quilômetros do vulcão, e é por isso que aeroportos distantes fecham.

Fontes científicas consultadas
- Badan Geologi (ESDM) — Perkembangan erupsi Gunungapi Anak Krakatau, 7 de setembro de 2026
- ANTARA News — PVMBG continues monitoring Anak Krakatau after eruption ends
- NASA Earth Observatory — Anak Krakatau Rumbles Again (9 de setembro de 2026)
- Smithsonian Institution, Global Volcanism Program — Krakatau
- Syamsidik et al. (2020) — The 22 December 2018 Mount Anak Krakatau volcanogenic tsunami on Sunda Strait coasts, Natural Hazards and Earth System Sciences, 20(2)
- The Watchers — Strong eruption at Anak Krakatau closes 8 airports, disrupts 1 558 flights
- Databoks/Katadata — Mount Anak Krakatau erupts again, 9 September 2026
- Al Jazeera — Thousands stranded as Anak Krakatau eruption shutters Indonesian airports