
O nome quer dizer “boa mãe lagarto”, e não é exagero de divulgação: foi escolhido por causa do que estava no chão. Em 1978, uma equipe liderada por John Horner encontrou em Montana, nos Estados Unidos, mais de uma dúzia de esqueletos de filhotes reunidos em estruturas de ninho. No ano seguinte, a descrição saiu na Nature com um título direto — um ninho de juvenis fornecendo evidência de estrutura familiar entre dinossauros.
Quem era o animal

Maiasaura peeblesorum era um hadrossaurídeo, o grupo dos chamados dinossauros bico de pato, dentro dos ornitísquios herbívoros. Tinha bico córneo na frente da boca e, atrás dele, baterias dentárias — centenas de dentes empacotados que funcionavam como uma superfície de moagem e se repunham conforme gastavam.
O adulto chegava a cerca de 9 metros de comprimento. A massa depende de qual estimativa se adota, e vale registrar a divergência: o Natural History Museum de Londres indica 2.500 quilos, enquanto o estudo populacional de 2015, baseado em histologia de ossos, calculou massa assintótica de aproximadamente 3.833 quilos, com margem de 958. As duas usam métodos diferentes, e nenhuma é “a certa”.
Onde e quando viveu
Todo o material conhecido vem da Formação Two Medicine, no anticlinal de Willow Creek, condado de Teton, no noroeste de Montana. A idade é Cretáceo Superior, andar Campaniano — por volta de 80 a 75 milhões de anos atrás.
Era uma planície continental interior, longe da costa, o que ajuda a explicar a preservação: sedimento de rio e de solo enterrando ninhadas inteiras, em vez de carcaças dispersas em ambiente marinho. Maiasaura é hoje o fóssil-símbolo do estado de Montana, e nenhum outro dinossauro tem uma história de vida documentada com tanto detalhe.
Por que se diz que ela cuidava dos filhotes

A leitura original de Horner partiu de três observações combinadas. Os filhotes estavam dentro ou muito perto das estruturas de ninho, e não espalhados. Os ossos das articulações ainda eram imaturos, pouco ossificados, o que num animal que anda sozinho seria estranho. E os dentes já mostravam desgaste, o que significa que aqueles animais estavam comendo.
Filhote que come e não anda depende de alguém que traga comida. Foi esse encaixe — não um único fóssil espetacular — que sustentou a proposta de cuidado parental prolongado, e é por isso que o gênero ganhou esse nome.
Um trabalho de 2018 na PeerJ descreveu em detalhe os espécimes recém-nascidos e acrescentou uma peça: eles já tinham dentição funcional, com dez a doze posições de dentes, e um crânio de focinho curto e órbitas grandes, proporções típicas de filhote.
O que um estudo de 2025 acrescentou
A hipótese do cuidado parental foi discutida por décadas justamente por depender de inferência sobre comportamento, que fóssil não registra diretamente. Em 2025, um trabalho publicado na Scientific Reports atacou o problema por outro caminho.
A equipe estimou a taxa metabólica dos recém-nascidos a partir do tecido ósseo e comparou com aves atuais. O resultado: a amplitude aeróbica dos neonatos de Maiasaura se parece com a de aves altriciais — aquelas que nascem incapazes de se manter e dependem dos pais por semanas. A estimativa é de 40 a 75 dias no ninho.
Vale notar quem assina: entre os autores estão Holly Woodward e o próprio John Horner. O estudo não derruba a interpretação de 1979; converte uma leitura qualitativa de ossos em medida fisiológica comparável, e chega ao mesmo lugar por outro método.
Nove em cada dez filhotes morriam no primeiro ano
O retrato mais completo da vida desse animal veio de um trabalho de 2015 na Paleobiology, que cortou e analisou 50 tíbias de pelo menos 32 indivíduos — uma amostra histológica grande o bastante para montar uma tabela de sobrevivência, coisa rara em paleontologia.

O padrão é o de um animal que aposta em ninhadas grandes e perde quase tudo no começo. Quem passava do primeiro ano entrava numa janela relativamente segura de sete anos, e depois voltava a morrer em ritmo alto.
Crescia rápido e amadurecia antes de parar de crescer
Os mesmos ossos deram a curva de crescimento. No terceiro ano de vida, Maiasaura já tinha cerca de 36% da massa adulta, em média 1.260 quilos, e é nessa faixa que aparecem as mudanças no tecido ósseo que costumam acompanhar o início da maturidade sexual.
O tamanho adulto só estabilizava entre seis e oito anos. Ou seja, o animal provavelmente já se reproduzia enquanto ainda crescia — um padrão diferente do de mamíferos grandes e mais parecido com o de répteis e aves atuais.
O que ainda não sabemos
A cor e o padrão da pele são desconhecidos. Há impressões de pele fossilizada para hadrossaurídeos, que mostram a textura escamosa, mas não a cor — qualquer reconstrução colorida, inclusive as deste portal, é inferência.
Não se sabe se os dois pais cuidavam ou só um, nem quantos ovos havia por ninhada em média, nem se as colônias de ninhos eram usadas ano após ano pelos mesmos indivíduos. E o próprio grau de dependência dos filhotes continua sendo uma inferência a partir de osso e metabolismo, não uma observação. O Cretáceo foi o auge dos hadrossaurídeos, e mesmo assim só uma espécie deles tem a história de vida reconstruída nesse nível.
Perguntas frequentes
O que significa o nome Maiasaura?
“Boa mãe lagarto”. Maia vem de uma deusa-mãe da mitologia grega e saura é a forma feminina de “lagarto” — o gênero foi deliberadamente nomeado no feminino. O epíteto peeblesorum homenageia a família Peebles, dona das terras onde o material foi encontrado.
Maiasaura era um dinossauro bico de pato?
Era. Pertence aos hadrossaurídeos, o grupo popularmente chamado de bico de pato por causa do bico córneo largo e achatado na frente da boca.
Ela conviveu com o Tyrannosaurus rex?
Não. Maiasaura viveu no Campaniano, entre cerca de 80 e 75 milhões de anos atrás, e o T. rex aparece no Maastrichtiano, mais de cinco milhões de anos depois. São faunas diferentes do mesmo período.
Qual era o predador dela?
A Formação Two Medicine tem terópodes de grande porte contemporâneos, e a defesa de Maiasaura provavelmente estava no número e na vigilância, não em armadura ou chifres — diferente do caminho seguido por outros ornitísquios, como o Triceratops.
Por que Maiasaura é tão estudada?
Porque há material demais: dezenas de indivíduos de todas as idades, do recém-nascido ao adulto, vindos da mesma formação. Isso permite fazer estatística de população, coisa que quase nenhum dinossauro oferece.
Fontes científicas consultadas
Para a descoberta original e a proposta de estrutura familiar, o artigo de Horner e Makela na Nature: Nest of juveniles provides evidence of family structure among dinosaurs.
Para o estado dos recém-nascidos e a necessidade de cuidado parental, o estudo de 2025 na Scientific Reports: Neonatal state and degree of necessity for parental care in Maiasaura.
Para a morfologia dos espécimes perinatais e o sítio de coleta, o trabalho de Prieto-Márquez e Guenther na PeerJ: Perinatal specimens of Maiasaura from the Upper Cretaceous of Montana.
Para a curva de crescimento, a mortalidade por faixa etária e a massa adulta, o estudo de Woodward e colegas na Paleobiology: Maiasaura, a model organism for extinct vertebrate population biology.
Para comprimento, massa, idade e posição taxonômica, a ficha do Natural History Museum de Londres.