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Cenozoico Paleogeno

Cenozoico: a Era dos Mamíferos, do K-Pg até Hoje

Com a extinção dos dinossauros não avianos, há 66 milhões de anos, os mamíferos ganharam o planeta. Entenda as três fases do Cenozoico, por que a Terra esfriou, como surgiu a Era do Gelo e por que, oficialmente, ainda vivemos no Holoceno — e não no Antropoceno.

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Reconstrução artística de uma savana do período Mioceno, com mamíferos herbívoros pastando em campo aberto durante o Cenozoico.
Reconstrução artística de uma paisagem de savana do Mioceno, quando a expansão das gramíneas transformou a evolução dos mamíferos herbívoros. Imagem meramente ilustrativa.

Há 66 milhões de anos, um asteroide de cerca de 10 quilômetros de diâmetro atingiu o que hoje é a península de Yucatán, no México. Em questão de horas, o impacto e suas consequências mataram cerca de três quartos das espécies vivas no planeta, incluindo todos os dinossauros não avianos. É exatamente nesse ponto — o fim abrupto de um mundo dominado por répteis gigantes — que começa a era em que vivemos até hoje: o Cenozoico.

O nome vem do grego kainós, “novo”, e zoé, “vida” — “vida nova”. Foi cunhado em 1840 pelo geólogo britânico John Phillips, e a escolha faz sentido: depois do vazio ecológico deixado pela extinção dos dinossauros, a vida na Terra literalmente se reorganizou do zero. É por isso que o Cenozoico também é chamado, com razão, de Era dos Mamíferos.

As três fases do Cenozoico

Formalmente, a era se divide em três períodos. O Paleógeno vai de 66 a 23 milhões de anos atrás e contém três épocas: Paleoceno, Eoceno e Oligoceno. O Neógeno cobre de 23 a 2,58 milhões de anos atrás, com o Mioceno e o Plioceno. E o Quaternário, o mais recente, começa há 2,58 milhões de anos e chega até o presente, dividido em Pleistoceno e Holoceno — esta última sendo a época em que estamos agora.

Essas datas seguem a Carta Cronoestratigráfica Internacional, atualizada periodicamente pela Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS), o órgão responsável por definir oficialmente as divisões do tempo geológico. Se você já leu algo sobre “Período Terciário”, saiba que é um termo antigo, hoje fora de uso formal — equivalia, grosso modo, à soma do Paleógeno com o Neógeno, e ainda aparece bastante em livros e sites mais antigos.

O que aconteceu logo depois do impacto

Imagine o cenário: florestas destruídas, poeira bloqueando o sol por meses, cadeias alimentares inteiras colapsando. Foi nesse contexto, já detalhado no artigo sobre o Período Cretáceo, que o Cenozoico começou.

Mas a vida se recupera — e às vezes rápido. Os mamíferos que sobreviveram à extinção eram, até então, criaturas pequenas, discretas, majoritariamente noturnas, convivendo à sombra dos dinossauros havia mais de 150 milhões de anos. Com os grandes predadores e herbívoros mesozoicos fora do jogo, esses animais tiveram, pela primeira vez, espaço para crescer e se diversificar. Em poucos milhões de anos — o que é muito pouco tempo em escala geológica — já existiam as primeiras linhagens que dariam origem a ungulados, primatas e carnívoros modernos. As aves, os únicos dinossauros que sobreviveram, passaram por uma explosão evolutiva parecida.

Depois veio um episódio curioso. Cerca de 56 milhões de anos atrás, no limite entre o Paleoceno e o Eoceno, uma quantidade enorme de carbono foi liberada na atmosfera num intervalo geologicamente curto — as causas exatas ainda são debatidas, mas o efeito é bem documentado. As temperaturas globais subiram vários graus num evento conhecido como Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, ou PETM. Plantas e animais tiveram que se deslocar ou se adaptar rapidamente. Hoje, geólogos e climatologistas estudam o PETM como uma espécie de “experimento natural” para entender o que acontece quando o planeta recebe uma dose grande de carbono num curto espaço de tempo.

O planeta ganhando o formato que conhecemos

Se você olhar um mapa-múndi hoje, está vendo, em boa parte, um produto do Cenozoico. Foi ao longo dessa era que os continentes se deslocaram até as posições atuais. A Índia, que vinha “navegando” separada havia milhões de anos, colidiu com a Ásia no Eoceno — a colisão ainda está em curso, e é por isso que o Himalaia continua crescendo alguns milímetros por ano. Os Andes se ergueram com mais força nas Américas. Os Alpes tomaram forma na Europa.

Outro evento decisivo aconteceu no Oligoceno, quando se abriu a Passagem de Drake, o estreito trecho de oceano entre a América do Sul e a Antártida. Essa abertura permitiu a formação da Corrente Circumpolar Antártica, uma corrente oceânica que passou a isolar termicamente o continente antártico do resto do planeta. O resultado foi o início do congelamento permanente da Antártida — e um empurrão importante para a tendência de resfriamento global que domina boa parte do Cenozoico.

Por que o planeta esfriou (e como isso mudou tudo)

Depois do calor inicial da era, incluindo o PETM, a Terra entrou numa longa trajetória de resfriamento e ressecamento que se estendeu por dezenas de milhões de anos. Um dos efeitos mais visíveis disso aconteceu no Mioceno: o clima mais seco favoreceu a expansão maciça de gramíneas, transformando paisagens antes florestadas em savanas e campos abertos.

Essa mudança na vegetação empurrou a evolução dos animais que dependiam dela. Surgiram mamíferos herbívoros com dentes mais adaptados a mastigar gramíneas abrasivas e pernas mais longas, feitas para correr em espaço aberto — entre eles, os ancestrais dos cavalos modernos.

Mais tarde, outro reencontro geográfico mudou o mapa da vida selvagem nas Américas. O fechamento do Istmo do Panamá uniu de vez a América do Norte à América do Sul, dois continentes que viviam isolados havia dezenas de milhões de anos. O resultado foi o Grande Intercâmbio Biótico Americano: espécies terrestres de ambos os lados puderam, pela primeira vez, migrar livremente entre os dois continentes. A data exata em que esse istmo se fechou completamente ainda gera discussão entre pesquisadores, então vale tratar isso como um processo gradual, não um evento pontual.

A Era do Gelo que todo mundo conhece

Quando alguém fala em “Era do Gelo”, normalmente está se referindo ao Pleistoceno — a época dentro do Quaternário marcada por ciclos repetidos de avanço e recuo de enormes calotas de gelo continentais. Não foi um frio constante: períodos glaciais se alternaram com fases mais quentes, os interglaciais, num ritmo que se repetiu várias vezes ao longo de mais de 2 milhões de anos.

Foi nesse cenário gelado e instável que floresceu a megafauna que hoje povoa a imaginação popular: mamutes, preguiças-gigantes, tigres-dentes-de-sabre. O Holoceno, a época em que vivemos, começou há cerca de 11.700 anos, quando a última grande glaciação chegou ao fim e o clima se estabilizou no padrão relativamente ameno que conhecemos.

E os humanos entram na história

A partir do Mioceno tardio e do Plioceno começa a se desenrolar a história evolutiva dos hominíneos — o grupo que inclui os ancestrais diretos da linhagem humana depois da separação em relação aos ancestrais comuns com os chimpanzés. O gênero Homo surge no leste da África há cerca de 2,5 milhões de anos, já dentro do Pleistoceno inicial. Os fósseis mais antigos conhecidos de Homo sapiens têm cerca de 300 mil anos e foram encontrados em Jebel Irhoud, no Marrocos.

Em termos de tempo geológico, é um piscar de olhos: nossa espécie ocupa uma fatia mínima dos 66 milhões de anos do Cenozoico. Mas é justamente por isso que os efeitos que causamos no planeta chamam tanta atenção — mudanças que a Terra normalmente levaria milhões de anos para produzir estão acontecendo em décadas.

Estamos no Antropoceno?

A proposta de reconhecer formalmente uma nova época geológica — o Antropoceno, marcada pelo impacto global das atividades humanas — ganhou força nos últimos anos. Em março de 2024, porém, a Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário da ICS rejeitou a proposta, por falta de consenso sobre um marcador estratigráfico único que definisse seu início. Oficialmente, portanto, ainda vivemos no Holoceno.

Isso não significa que o conceito tenha sido descartado como ideia. O termo “Antropoceno” segue amplamente usado fora da nomenclatura formal, por cientistas de áreas como climatologia, ecologia e ciências sociais, para descrever a escala da influência humana sobre os sistemas terrestres. Só não entrou, pelo menos por enquanto, na carta oficial de tempo geológico.

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Perguntas frequentes

Quanto tempo dura o Cenozoico? Já são cerca de 66 milhões de anos, e a era continua em curso — vivemos atualmente na época Holocena, dentro do período Quaternário.

Por que o Cenozoico é chamado de “Era dos Mamíferos”? Porque foi nesse intervalo, após a extinção dos dinossauros não avianos, que os mamíferos se diversificaram e passaram a ocupar a maioria dos grandes nichos ecológicos terrestres — embora aves, répteis e outros grupos também tenham prosperado.

Qual a diferença entre Cenozoico, Terciário e Quaternário? “Terciário” é um termo informal, hoje em desuso na nomenclatura oficial, que correspondia à soma dos períodos Paleógeno e Neógeno. O Quaternário é o período mais recente do Cenozoico, iniciado há 2,58 milhões de anos.

Vivemos no Antropoceno? Formalmente, não — a proposta foi rejeitada pela comunidade de estratigrafia em 2024. Vivemos oficialmente no Holoceno, dentro do Cenozoico.

Fontes científicas consultadas

IUGS/ICS — comunicado oficial conjunto sobre a rejeição do Antropoceno como época geológica formal (março de 2024): https://stratigraphy.org/news/152

International Commission on Stratigraphy (ICS) — International Chronostratigraphic Chart: https://stratigraphy.org/chart

Atlas Virtual da Pré-História — visão geral do Cenozoico: https://www.atlasvirtual.com.br/cenozoico.htm

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