
O Dunkleosteus terrelli foi o maior predador conhecido dos mares que cobriam a região de Ohio no fim do Devoniano, e um dos primeiros superpredadores vertebrados da história da vida. Ele não tinha dentes: no lugar deles, lâminas de osso exposto que se afiavam sozinhas cada vez que a boca abria e fechava. E, ao contrário do que se repetiu por quase um século, ele não media 8 ou 10 metros — uma revisão publicada em 2023 reduziu o animal para cerca de 3,4 metros.
Que animal era o Dunkleosteus

Dunkleosteus era um placodermo, membro de um grupo de peixes encouraçados que dominou os mares do Devoniano e desapareceu no fim daquele período. Dentro dos placodermos, pertencia à ordem Arthrodira, os artrodiros, caracterizados por uma articulação entre a armadura da cabeça e a do tronco que funcionava como uma dobradiça no pescoço.
O nome junta o sobrenome de David Dunkle, curador do Museu de História Natural de Cleveland, ao grego ostéon, osso. O epíteto da espécie lembra Jay Terrell, o colecionador amador que encontrou os primeiros fósseis em 1867, em Sheffield Lake, na margem do lago Erie. A espécie foi descrita em 1873 pelo geólogo estadual John Strong Newberry, com outro nome de gênero, Dinichthys.
Em 2020, o Dunkleosteus terrelli virou o peixe fóssil oficial do estado de Ohio, o segundo fóssil animal a receber a designação depois do trilobita Isotelus. É um animal com presença pública rara para um peixe extinto há 360 milhões de anos.
Quando e onde ele viveu
O gênero é conhecido de rochas do Devoniano Superior, entre aproximadamente 382 e 358 milhões de anos atrás. A espécie mais conhecida, D. terrelli, viveu por volta de 360 milhões de anos atrás, quando o território do atual estado de Ohio ficava ao sul do equador e era coberto por um mar tropical raso.
Os melhores fósseis vêm do Membro Cleveland Shale, da Formação Ohio Shale, no norte de Ohio — camadas de folhelho negro expostas hoje pelos rios da região e por obras de estradas. Uma parte importante do acervo apareceu durante a construção da Interestadual 71, nos anos 1960. O Museu de História Natural de Cleveland reúne a maior e mais bem preservada coleção do mundo.

Fora dos Estados Unidos, o gênero é reconhecido no Canadá e na Rússia, e há material europeu atribuído a ele. Vários fósseis antes chamados de Dunkleosteus, como os do Marrocos, hoje são colocados em outros gêneros, como Eastmanosteus — um lembrete de que a distribuição de um táxon extinto muda conforme a taxonomia é revista.
Esse intervalo está no meio do Paleozoico, a era em que a vida saiu da água e ocupou os continentes. O artigo Era Paleozoica: Quando a Vida Conquistou a Terra cobre esse quadro maior, do Cambriano ao Permiano.
Por que ele encolheu pela metade
As estimativas clássicas de comprimento partiam de comparações com tubarões: se a cabeça blindada tinha certo tamanho, o corpo inteiro seria proporcionalmente longo. Por esse caminho chegava-se a valores entre 8 e 10 metros, e são esses números que aparecem em museus, documentários e enciclopédias até hoje.
Em 2023, um trabalho reexaminou a questão partindo de uma observação simples: entre peixes vivos e entre artrodiros menores com esqueleto completo, peixes curtos têm cabeças curtas e peixes longos têm cabeças longas. A cabeça dos maiores exemplares conhecidos mede 61 centímetros. Aplicada a proporção, esses indivíduos excepcionais chegam a cerca de 4,1 metros, e os adultos típicos ficam em torno de 3,4 metros.
Encolher não significa enfraquecer. Uma reconstrução detalhada do corpo, publicada em 2024 pelo mesmo autor, mostra um tronco desproporcionalmente alto para um artrodiro — entre 25% e 28% do comprimento total — com grandes músculos laterais e adaptações de nado semelhantes às dos atuns. O animal passou de comprido e esguio a curto e maciço, com massa equivalente à de um tubarão-branco de 4,6 metros.
Lâminas de osso no lugar de dentes

O Dunkleosteus não tinha dentes. Tinha placas gnatais: prolongamentos de osso exposto nas placas do maxilar e da mandíbula, com bordas afiadas. Cada vez que a boca abria e fechava, as bordas se roçavam e se desgastavam uma contra a outra, mantendo o corte vivo. É um sistema autoafiante, que resolve o mesmo problema que os dentes resolvem de outro jeito: manter o gume depois de centenas de mordidas em presas duras.

Esse arranjo não era a regra entre os parentes. O estudo anatômico de 2025 deixou claro que a maioria dos artrodiros tinha dentes de verdade, e que o Dunkleosteus e seus parentes próximos os perderam em favor das lâminas. O traço mais famoso do grupo é, portanto, uma especialização de um ramo, e não a condição primitiva dos placodermos.
As lâminas servem para uma coisa específica: arrancar pedaços de presas grandes demais para serem engolidas inteiras. É a mesma solução funcional a que os tubarões chegaram por outro caminho, com dentes serrilhados — e é o que se espera de um predador que caçava animais do seu próprio tamanho.
A mordida mais rápida do Devoniano
Um estudo de biomecânica publicado em 2007 na revista Biology Letters modelou o crânio do Dunkleosteus e encontrou uma combinação incomum. A articulação entre a cabeça e o tronco formava um mecanismo de quatro barras, com quatro articulações rotacionais operando em conjunto, que abria a boca em cerca de um cinquentavo de segundo.
Os autores interpretaram essa abertura rápida como sucção, à maneira dos peixes atuais que puxam a presa por pressão negativa. Trabalhos posteriores enfatizam outra leitura: uma boca tão grande é pouco eficiente para gerar sucção, e as lâminas são estruturas de corte, feitas para processar a presa na boca e não para aspirá-la. A velocidade de abertura é um resultado sólido; a função que ela cumpria segue em discussão.
O mesmo modelo indicou uma das mordidas mais fortes já estimadas para um peixe, na faixa de grandes crocodilianos. Vale registrar que os valores numéricos variam bastante conforme o ponto da mandíbula considerado e conforme o modelo usado, e que diferentes publicações citam cifras bem distintas. O mesmo cuidado se aplica a qualquer comparação com o Tyrannosaurus rex: O Tirano do Fim do Cretáceo, cujas estimativas de mordida também saem de modelos.
O que a revisão de 2025 mudou
Em novembro de 2025, uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Case Western Reserve University publicou na revista The Anatomical Record o primeiro estudo detalhado da mandíbula do Dunkleosteus desde 1932. O trabalho analisou os exemplares do Museu de História Natural de Cleveland procurando o que o osso diz sobre inserções musculares e função — pergunta diferente da que os modelos biomecânicos faziam.
Três achados mudam a imagem do animal. Quase metade do crânio era formada por cartilagem, incluindo a maior parte das conexões da mandíbula e dos pontos de inserção muscular, bem mais do que se supunha. Foi identificado um canal ósseo que abrigava um músculo facial semelhante ao de tubarões e raias atuais, uma das melhores evidências dessa estrutura em peixes antigos. E o Dunkleosteus, apesar de ser o cartaz do grupo, era atípico entre os artrodiros.
Essa última conclusão tem alcance maior que o animal. Como resumiu o autor principal, os artrodiros não podem ser tratados como um bloco de animais primitivos e parecidos entre si: eram um grupo diverso, que ocupou muitos papéis ecológicos ao longo de sua história.
O que o Dunkleosteus comia
A evidência aqui é direta e pouco comum na paleontologia. Fósseis de Dunkleosteus aparecem com frequência acompanhados de bolos de ossos de peixe semidigeridos e de restos parcialmente comidos, além de dentes de peixes cartilaginosos regurgitados. São refeições fossilizadas, e não dedução a partir da forma da mandíbula.
O cardápio incluía outros peixes encouraçados, tubarões primitivos e invertebrados de concha dura. A armadura dos placodermos contemporâneos não era proteção suficiente contra lâminas capazes de cortar osso.
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Por que não existe um esqueleto completo
Nenhum exemplar completo de Dunkleosteus jamais foi encontrado, e a razão é a mesma que explica a escassez de tubarões fósseis inteiros: a maior parte do corpo não era osso.
O que fossiliza bem são as placas dérmicas da cabeça e da metade anterior do tronco, feitas de osso verdadeiro, com camadas corticais e esponjosas parecidas com as dos ossos de tetrápodes. A placa da nuca tem de 5 a 7 centímetros de espessura; no resto do corpo a armadura é bem mais fina. Atrás disso, o esqueleto era em boa parte cartilaginoso, e desapareceu.
O resultado é que cerca de 95% dos exemplares conhecidos preservam menos de um quarto do esqueleto, e a aparência do corpo posterior permanece desconhecida. Toda reconstrução da metade de trás do animal é extrapolação a partir de artrodiros menores e mais completos, como o Coccosteus. Esse trabalho de reconstruir um animal inteiro a partir de fragmentos é o que descreve o artigo Paleontologia: O Que É e Como Estuda o Passado da Terra.
O fim dos placodermos
O Dunkleosteus não foi vítima de um azar particular. Ele desapareceu junto com todo o seu grupo, no evento Hangenberg, há cerca de 359 milhões de anos, no limite entre o Devoniano e o Carbonífero.
Foi uma extinção severa, embora sua magnitude esteja em discussão: parte dos trabalhos aponta a perda de perto de metade dos gêneros marinhos, outros ficam em torno de um terço. Todos os subgrupos de placodermos que ainda existiam — artrodiros, antiarcos, filolepídeos e ptictodontes — desapareceram de uma vez, depois de já terem perdido diversidade numa crise anterior.
A linhagem do Dunkleosteus não deixou descendentes. Quanto aos placodermos como um todo, a maioria das análises recentes os trata como um agrupamento parafilético: é de dentro desse conjunto de linhagens que saíram os vertebrados com mandíbula atuais, dos tubarões aos seres humanos.
As causas propostas para o Hangenberg são várias e provavelmente atuaram juntas: falta de oxigênio nos oceanos, resfriamento global com glaciação, acúmulo de gás sulfídrico tóxico na água e vulcanismo. Não há consenso sobre o peso de cada fator.
Por que o Dunkleosteus importa
Além do apelo evidente de um peixe blindado de mandíbulas cortantes, ele ocupa um lugar preciso na história dos vertebrados. As linhagens de grau placodermo estão entre as primeiras com mandíbula, e o Dunkleosteus é o exemplo mais espetacular do que essa novidade evolutiva tornou possível: um vertebrado no topo da cadeia alimentar, capaz de processar presas grandes com a boca.
E ele é um bom lembrete de como a ciência funciona. Um fóssil estudado desde 1867, exposto em museus do mundo inteiro, continuou rendendo descobertas que reduziram seu tamanho pela metade em 2023, refizeram suas proporções em 2024 e reescreveram sua anatomia craniana em 2025.
Perguntas frequentes
Qual era o tamanho do Dunkleosteus?
Cerca de 3,4 metros nos adultos típicos e perto de 4,1 metros nos maiores exemplares, segundo a revisão de 2023. Estimativas anteriores, baseadas em proporções de tubarão, chegavam a 8 ou 10 metros e ainda circulam em muitos museus e materiais de divulgação.
O Dunkleosteus tinha dentes?
Não. No lugar de dentes ele tinha placas gnatais, prolongamentos de osso exposto com bordas afiadas que se desgastavam uma contra a outra e se mantinham cortantes. Curiosamente, a maioria dos artrodiros tinha dentes de verdade — foi o Dunkleosteus e seus parentes próximos que os perderam.
Quando o Dunkleosteus viveu?
No Devoniano Superior. O gênero aparece entre aproximadamente 382 e 358 milhões de anos atrás, e a espécie D. terrelli viveu por volta de 360 milhões de anos atrás.
Por que os placodermos foram extintos?
No evento Hangenberg, há cerca de 359 milhões de anos, que eliminou de uma vez todos os grupos de placodermos que restavam. As causas prováveis combinam falta de oxigênio nos oceanos, resfriamento e glaciação, água tóxica por gás sulfídrico e vulcanismo.
O Dunkleosteus era mais forte que o Tyrannosaurus rex?
Não dá para responder com segurança. As duas estimativas vêm de modelos biomecânicos, e não de medições, e os valores variam conforme o ponto da mandíbula e o método. O que se pode dizer é que o Dunkleosteus tinha uma das mordidas mais fortes já calculadas para um peixe e que a combinava com uma abertura de boca extremamente rápida, o que é raro.