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Um saurópode adulto passava de trinta toneladas. O primeiro sauropodomorfo da história pesava menos que um cão grande — e talvez comesse carne. Entre um e outro há cerca de quarenta milhões de anos de Triássico, e é nesse intervalo que o grupo definiu quase tudo: o pescoço comprido, o hábito herbívoro, e uma tendência ao tamanho gigante que apareceu muito antes do que os paleontólogos esperavam.
Onde a história começa
Os sauropodomorfos surgiram no Triássico Superior, entre 233 e 231 milhões de anos atrás, num momento em que os dinossauros ainda dividiam o ambiente com outros grupos de répteis hoje extintos e não eram os animais dominantes da paisagem. Os fósseis mais antigos e mais informativos do grupo vêm de dois lugares na América do Sul: a Formação Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e a Formação Ischigualasto, na Argentina — duas sequências de rocha que registram praticamente o mesmo momento geológico, o Neotriássico.
Isso não é coincidência de preservação. É porque os dinossauros, e os sauropodomorfos dentro deles, se originaram no que hoje é o sul da América do Sul, numa época em que o supercontinente Pangeia ainda mantinha essas terras juntas.
Os pioneiros brasileiros
Saturnalia tupiniquim foi descrito em 1999, por Max Langer, Fernando Abdala, Martha Richter e Michael Benton, a partir de fósseis do Membro Alemoa, na Formação Santa Maria. Tinha cerca de 1,5 metro de comprimento e pesava entre 4 e 11 quilos — do tamanho de um cão. Andava sobre as duas patas, tinha o crânio pequeno e o focinho curto, e é um dos dinossauros mais antigos conhecidos, com idade próxima de 233 milhões de anos.
Sua posição na árvore genealógica ainda gera discussão: alguns estudos o colocam como sauropodomorfo basal, outros como um saurísquio anterior à divisão entre sauropodomorfos e terópodes. Faz parte do processo normal da ciência reconstruir uma árvore evolutiva com fósseis fragmentários de animais muito antigos, e o próprio posicionamento de Saturnalia muda conforme novos dados entram na análise.
Na mesma formação e praticamente a mesma idade, veio uma surpresa maior. Descrito em 2016 por Sérgio Cabreira e colegas, Buriolestes schultzi pesava entre 6 e 15 quilos e tinha dentes finos, serrilhados e curvos — dentário de carnívoro, adaptado a caçar pequenos vertebrados. A descoberta mudou a leitura sobre a dieta ancestral do grupo: sauropodomorfos, terópodes e todos os saurísquios provavelmente começaram carnívoros, e a herbivoria surgiu depois, de forma independente, em diferentes ramos — incluindo o que deu origem aos saurópodes gigantes que vieram muito depois.
O sauropodomorfo mais antigo conhecido
Do outro lado da fronteira, na Formação Ischigualasto, na Argentina, veio Panphagia protos, descrito em 2009 por Ricardo Martínez e Oscar Alcober. Com cerca de 1,3 metro, viveu há aproximadamente 231 milhões de anos e é hoje reconhecido como o sauropodomorfo basal mais antigo da filogenia do grupo. O nome, do grego “que come tudo”, reflete uma dentição que parece de transição entre carnívoro e herbívoro — reforçando, com outro fóssil e outro país, a mesma história que Buriolestes já vinha contando.
O gigante que não deveria existir ainda
Por décadas, a ideia aceita era que o tamanho gigante nos dinossauros surgiu só no Jurássico, dentro do grupo Sauropoda propriamente dito — o dos verdadeiros saurópodes, com ossos pneumáticos e sistema respiratório do tipo aviário. Um estudo de 2018, publicado na Nature Ecology & Evolution por Cecilia Apaldetti, Ricardo Martínez, Ignacio Cerda, Diego Pol e Oscar Alcober, derrubou essa cronologia.
A equipe descreveu Ingentia prima, da Formação Quebrada del Barro, no noroeste argentino, com idade entre 210 e 205 milhões de anos — ainda dentro do Triássico Final. As estimativas colocam o animal entre 8 e 10 metros de comprimento e cerca de 10 toneladas. Junto com o já conhecido Lessemsaurus sauropoides, ele forma o grupo Lessemsauridae, sauropodomorfos que atingiram porte gigante mais de 30 milhões de anos antes do aparecimento dos primeiros verdadeiros saurópodes.
O mais interessante é que chegaram lá por outro caminho. As vértebras cervicais de Ingentia já eram bastante pneumáticas — sinal de um sistema respiratório eficiente, do tipo que as aves usam hoje — e a histologia óssea aponta crescimento acelerado. São os mesmos ingredientes que os verdadeiros saurópodes usariam depois, só que testados antes, e de forma independente, num ramo da família que não deixou descendentes gigantes diretos.
Uma postura que muda ao longo da vida, não só ao longo da evolução
Ainda restava a pergunta de como um bípede como Saturnalia deu origem a um quadrúpede como os saurópodes. A resposta mais completa veio de um estudo de 2019, na Scientific Reports, assinado por Alejandro Otero, Andrew Cuff, Vivian Allen, Lauren Sumner-Rooney, Diego Pol e John Hutchinson, sobre Mussaurus patagonicus, da Argentina.
A descoberta inverteu a expectativa. Filhotes de Mussaurus eram quadrúpedes, e conforme cresciam, tornavam-se bípedes — o oposto do que se supunha para a evolução do grupo como um todo. O fator decisivo não foi o comprimento dos membros, e sim o desenvolvimento da cauda: uma cauda relativamente maior desloca o centro de massa e muda a postura mais eficiente para caminhar. É um lembrete de que o crescimento de um indivíduo e a evolução de uma linhagem inteira nem sempre seguem o mesmo roteiro, e generalizar de um para o outro é um dos erros mais fáceis de cometer em paleontologia.
O sauropodomorfo mais famoso da Europa
Fora da América do Sul, o registro mais estudado é Plateosaurus engelhardti, da Alemanha e da Suíça, do Triássico Final — o Noriano, entre cerca de 214 e 204 milhões de anos atrás. Chegava a 10 metros e é conhecido por dezenas de esqueletos encontrados em depósitos monoespecíficos, como os de Trossingen e Frick, que permitiram estudar seu crescimento em detalhe através da histologia óssea. Diferente de Saturnalia e Buriolestes, já era herbívoro, e sua anatomia mostra a transição em curso rumo ao corpo maior e ao pescoço mais longo que caracterizaria os verdadeiros saurópodes depois.
O que ainda está em aberto
A posição exata de Saturnalia na árvore genealógica segue discutida, entre sauropodomorfo basal e saurísquio anterior à divisão do grupo. A cronologia de quando exatamente a herbivoria se fixou como hábito dominante também não é um ponto único no tempo, e sim um processo que parece ter ocorrido de forma escalonada e, possivelmente, mais de uma vez de modo independente. E o próprio conceito de “sauropodomorfo basal” — o antigo termo informal “prossaurópode” — descreve um grupo parafilético, ou seja, um agrupamento de conveniência para várias linhagens que não formam um grupo evolutivo fechado, e não uma família natural única.
Perguntas frequentes
Qual foi o primeiro sauropodomorfo?
Panphagia protos, da Formação Ischigualasto, na Argentina, com cerca de 231 milhões de anos, é hoje reconhecido como o sauropodomorfo basal mais antigo da filogenia do grupo. Saturnalia tupiniquim, do Brasil, tem idade semelhante, mas sua posição exata na árvore ainda é discutida.
Os primeiros sauropodomorfos comiam carne?
Ao menos um, sim. Buriolestes schultzi tinha dentes serrilhados adaptados à caça de pequenos vertebrados. A descoberta sugere que a herbivoria, marca registrada dos saurópodes, surgiu depois, e não estava presente desde o início do grupo.
O gigantismo nos saurópodes surgiu no Jurássico?
Não exclusivamente. Ingentia prima e Lessemsaurus sauropoides, do Triássico Final argentino, já alcançavam cerca de 10 toneladas mais de 30 milhões de anos antes dos primeiros verdadeiros saurópodes existirem — usando vértebras pneumáticas e crescimento acelerado, os mesmos recursos que os saurópodes usariam depois.
Os primeiros sauropodomorfos andavam em quatro patas?
Não. Saturnalia, Buriolestes e Panphagia eram bípedes. A transição para o quadrupedalismo ocorreu de forma gradual e não seguiu um caminho único — o estudo de Mussaurus mostrou até um caso em que filhotes eram quadrúpedes e os adultos, bípedes.
Existem fósseis de sauropodomorfos no Brasil?
Sim, e entre os mais importantes do mundo para entender a origem do grupo. Saturnalia tupiniquim e Buriolestes schultzi vêm da Formação Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com cerca de 233 milhões de anos.
Fontes científicas consultadas
- Langer, Abdala, Richter & Benton (1999). Saturnalia tupiniquim — Wikipédia (EN), com referências à publicação original
- Cabreira et al. (2016). Buriolestes schultzi, Current Biology — resumo e contexto
- Martínez & Alcober (2009). A basal sauropodomorph from the Ischigualasto Formation, PLOS ONE — https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0004397
- Apaldetti, Martínez, Cerda, Pol & Alcober (2018). An early trend towards gigantism in Triassic sauropodomorph dinosaurs, Nature Ecology & Evolution — https://www.nature.com/articles/s41559-018-0599-y
- Otero, Cuff, Allen, Sumner-Rooney, Pol & Hutchinson (2019). Ontogenetic changes in the body plan of Mussaurus patagonicus, Scientific Reports — https://www.nature.com/articles/s41598-019-44037-1
- Smithsonian Magazine — The Most Massive of Dinos Evolved Earlier Than Previously Thought