
Os pterossauros foram os primeiros vertebrados a conquistar o voo batido — muito antes das aves. Surgiram há cerca de 215 milhões de anos, no Triássico Superior, e desapareceram há 66 milhões, no mesmo evento que encerrou a Era Mesozoica.
Pterossauros não são dinossauros
Esse é o equívoco mais comum sobre eles, e o Museu de História Natural de Londres é direto a respeito: dinossauros não evoluíram para pterossauros, nem o contrário.
Os dois grupos descendem de um ancestral arcossauro comum, anterior ao Triássico Superior, e a partir dali seguiram caminhos evolutivos separados. São parentes, como primos, não uma linhagem dentro da outra.

A confusão é compreensível: eles viveram no mesmo intervalo, nos mesmos lugares, e sumiram juntos. Mas “dinossauro voador” é uma expressão sem sentido quando aplicada a um pterossauro. Os únicos dinossauros voadores são as aves.
A asa: um dedo que virou aeronave
A solução de voo dos pterossauros não se parece com nenhuma outra. A asa era uma membrana fina de pele que ia do braço até o tornozelo, sustentada por um único dedo, o quarto, alongado a um comprimento extraordinário.
Compare com as outras duas soluções que a evolução produziu. No morcego, vários dedos se abrem dentro da membrana, como as varetas de um guarda-chuva. Na ave, a asa é feita de penas presas a um braço relativamente curto.
Essa diferença tem consequência prática. Uma asa de pterossauro rasgada era um problema sério, porque não havia estrutura de reserva. Uma ave que perde penas continua voando.
Quando viveram

Infográfico de Prehistória™, criado com IA e revisado com base em evidências científicas.
O grupo atravessou toda a Era Mesozoica, do Triássico ao fim do Cretáceo. São cerca de 150 milhões de anos no ar.
Do tamanho de um pardal ao de um avião pequeno
A amplitude de tamanhos dentro do grupo é enorme. Os primeiros pterossauros eram animais relativamente pequenos, e alguns permaneceram assim durante toda a história do grupo.
No outro extremo está Quetzalcoatlus northropi, o maior animal voador que já existiu. As estimativas ficam em torno de 11 a 12 metros de envergadura e até 250 quilos. Em pé, no chão, chegava à altura de uma girafa.
Aqui vale registrar a incerteza: o Museu de História Natural indica cerca de 2,5 metros de altura no ombro, enquanto a equipe de Berkeley trabalha com cerca de 3,6 metros de altura total. A diferença não é contradição, e sim medidas de coisas distintas — e mostra por que números de animais fósseis merecem sempre a pergunta “altura de quê, exatamente”.
Quetzalcoatlus viveu há cerca de 70 milhões de anos no que hoje é o Texas, e seus fósseis foram encontrados no Parque Nacional de Big Bend em 1975.
Como um animal desses decolava
Essa foi uma das perguntas mais difíceis, e a resposta mudou nos últimos anos.
Em 2021, a Sociedade de Paleontologia de Vertebrados publicou uma monografia com seis artigos dedicados exclusivamente a Quetzalcoatlus, coordenada por Kevin Padian, com o engenheiro James Cunningham e o artista John Conway. A conclusão sobre a decolagem foi específica: o animal saltava, não corria.
O raciocínio é mecânico. Se conseguisse saltar o dobro da altura do próprio quadril, chegando a cerca de 2,4 metros, as asas ficariam livres do chão e ele poderia executar uma batida completa. Sem essa altura, a ponta da asa bateria no solo.
O mesmo trabalho descreveu um andar bípede peculiar, músculos de voo grandes, e um modo de vida em pântanos e campos abertos, com estratégia alimentar comparável à de garças e socós — caçando em água rasa, não planando sobre o mar.
O que comiam
Não havia uma dieta única de pterossauro. O grupo ocupou nichos muito diferentes.
Alguns eram pescadores, como Anhanguera, de mandíbulas longas. Outros tinham mandíbulas adaptadas a rasgar carne. Havia os que caçavam pequenos vertebrados em terra.
E havia até filtradores. Balaenognathus tinha dentes longos, finos e muito próximos uns dos outros, formando uma peneira para capturar organismos pequenos — a mesma estratégia que flamingos e baleias de barbatana usam hoje, por caminhos evolutivos completamente independentes.
Eram cobertos de quê?
Aqui está uma controvérsia científica ativa, e vale acompanhar como ela se desenrolou.
Sabe-se há tempos que pterossauros tinham o corpo coberto por filamentos, chamados picnofibras. A questão é o que essas estruturas eram.
Em dezembro de 2018, uma equipe liderada por Zixiao Yang publicou na Nature Ecology & Evolution a descrição de picnofibras ramificadas em anurognatídeos. As implicações seriam grandes: ou as penas têm origem evolutiva muito mais antiga, num ancestral arcossauro comum a pterossauros e dinossauros, ou surgiram duas vezes de forma independente.
Em 2020, na mesma revista, David Unwin e David Martill publicaram uma contestação direta. Argumentaram que as ramificações seriam artefato de preservação, e não característica real: fibras estruturais da membrana da asa, quando amontoadas ou parcialmente decompostas, exibem morfologias que apenas parecem ramificadas. Acrescentaram que melanossomos e queratina estão distribuídos por todo o tegumento e não são exclusivos das picnofibras, e que a raridade dessas estruturas, restritas a um único grupo, não sustenta a homologia com penas.
A questão segue aberta. Nas reconstruções, o correto é mostrar o corpo coberto de filamentos, sem afirmar que são penas.
O Brasil é protagonista nessa história
Diferente do que acontece com outros grupos, aqui o registro brasileiro não é nota de rodapé. A Bacia do Araripe, entre Ceará, Pernambuco e Piauí, é um dos melhores lugares do mundo para estudar pterossauros.
Duas unidades geológicas concentram o material. A Formação Crato, do Aptiano, preserva calcários finos formados no fundo de lagos. A Formação Romualdo, do Aptiano ao Albiano, guarda os fósseis dentro de concreções de carbonato, e teve datação por urânio-chumbo em 110,5 milhões de anos, com margem de 7,4 milhões.
O que torna esses depósitos excepcionais é a qualidade da preservação. Nas concreções da Romualdo, ossos aparecem em três dimensões, não achatados — o que permite estudar a anatomia com um detalhe raro em fósseis de animais tão frágeis.
Os pterossauros do Araripe
Uma revisão taxonômica publicada em 2025 por Rubi Pêgas nos Anais da Academia Brasileira de Ciências organizou o conjunto. Entre os gêneros descritos ali estão Tapejara, Tupandactylus, Anhanguera, Brasileodactylus, Cearadactylus, Maaradactylus, Tropeognathus, Ludodactylus, Barbosania, Arthurdactylus, Unwindia, Aymberedactylus e Caupedactylus.
Os tapejarídeos, grupo que inclui Tapejara e Tupandactylus, são conhecidos pelas cristas cranianas desproporcionais, que em alguns casos superam o tamanho do resto do crânio.
Uma observação do próprio trabalho de revisão: a diversidade de pterossauros do Araripe parece ter atingido um platô. A fase de descrever gêneros novos a cada temporada deu lugar à de atribuir espécimes aos táxons já conhecidos — sinal de que a fauna está razoavelmente mapeada.
Como desapareceram
Os pterossauros chegaram ao fim do Cretáceo reduzidos a poucas linhagens, dominadas por formas gigantes como Quetzalcoatlus. Desapareceram por completo na extinção de 66 milhões de anos atrás.
Não deixaram descendentes. Ao contrário dos dinossauros, que seguem entre nós na forma das aves, a linhagem dos pterossauros terminou ali — e com ela, uma maneira de voar que a evolução nunca mais repetiu.
Perguntas frequentes
Pterossauro é dinossauro?
Não. São grupos irmãos, descendentes de um ancestral arcossauro comum, que seguiram caminhos evolutivos separados. “Dinossauro voador” só se aplica às aves.
Qual foi o maior pterossauro?
Quetzalcoatlus northropi, com 11 a 12 metros de envergadura e até 250 quilos. É o maior animal voador conhecido.
Como os pterossauros voavam?
Com uma membrana de pele que ia do braço ao tornozelo, sustentada pelo quarto dedo, extremamente alongado. Era uma solução diferente da das aves e da dos morcegos.
Existiram pterossauros no Brasil?
Sim, e em abundância. A Bacia do Araripe preserva mais de uma dezena de gêneros, entre eles Tapejara, Tupandactylus e Anhanguera, em rochas de cerca de 110 milhões de anos.
Pterossauros tinham penas?
Tinham filamentos chamados picnofibras. Se eram penas verdadeiras é objeto de disputa: um estudo de 2018 defendeu que sim, e uma contestação de 2020 atribuiu as ramificações a artefato de preservação.
9. Fontes científicas consultadas
- Natural History Museum — Pterosaurs: the truth about these ‘flying dinosaurs’: https://www.nhm.ac.uk/discover/the-truth-about-pterosaurs.html
- UC Berkeley — Fleshing out the bones of Quetzalcoatlus, Earth’s largest flier ever (2021): https://news.berkeley.edu/2021/12/07/fleshing-out-the-bones-of-quetzalcoatlus-earths-largest-flier-ever/
- Yang et al., Pterosaur integumentary structures with complex feather-like branching, Nature Ecology & Evolution (2019): https://www.nature.com/articles/s41559-018-0728-7
- Unwin & Martill, No protofeathers on pterosaurs, Nature Ecology & Evolution (2020): https://www.nature.com/articles/s41559-020-01308-9
- Pêgas, Cretaceous Pterosaurs of the Araripe Basin: A Comprehensive Taxonomic Update and Paleobiological Insights, Anais da Academia Brasileira de Ciências 97, supl. 1 (2025): https://www.scielo.br/j/aabc/a/xNmRx7Lm5MCVmzSJC3Nc7CL/?lang=en
- American Museum of Natural History — What Is a Pterosaur?: https://www.amnh.org/explore/news-blogs/what-is-a-pterosaur