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Mesozoico Triássico

Os primeiros saurópodes: como tudo começou pequeno

Antes dos gigantes de trinta metros, o grupo começou como um bípede do tamanho de um cão, e o Brasil guarda dois dos fósseis mais importantes dessa história. Entenda como os sauropodomorfos surgiram, quando deixaram de ser carnívoros e por que o gigantismo apareceu muito antes do que se pensava.

8 min de leitura
Reconstrução artística de Saturnalia tupiniquim, sauropodomorfo bípede do tamanho de um cão, caminhando em uma planície fluvial do Triássico Superior no atual Rio Grande do Sul.
Saturnalia tupiniquim na Formação Santa Maria, sul do Brasil, há cerca de 233 milhões de anos. Reconstrução artística.
Arte de Prehistória™, criada com IA e revisada cientificamente.

Um saurópode adulto passava de trinta toneladas. O primeiro sauropodomorfo da história pesava menos que um cão grande — e talvez comesse carne. Entre um e outro há cerca de quarenta milhões de anos de Triássico, e é nesse intervalo que o grupo definiu quase tudo: o pescoço comprido, o hábito herbívoro, e uma tendência ao tamanho gigante que apareceu muito antes do que os paleontólogos esperavam.

Onde a história começa

Os sauropodomorfos surgiram no Triássico Superior, entre 233 e 231 milhões de anos atrás, num momento em que os dinossauros ainda dividiam o ambiente com outros grupos de répteis hoje extintos e não eram os animais dominantes da paisagem. Os fósseis mais antigos e mais informativos do grupo vêm de dois lugares na América do Sul: a Formação Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e a Formação Ischigualasto, na Argentina — duas sequências de rocha que registram praticamente o mesmo momento geológico, o Neotriássico.

Isso não é coincidência de preservação. É porque os dinossauros, e os sauropodomorfos dentro deles, se originaram no que hoje é o sul da América do Sul, numa época em que o supercontinente Pangeia ainda mantinha essas terras juntas.

Os pioneiros brasileiros

Saturnalia tupiniquim foi descrito em 1999, por Max Langer, Fernando Abdala, Martha Richter e Michael Benton, a partir de fósseis do Membro Alemoa, na Formação Santa Maria. Tinha cerca de 1,5 metro de comprimento e pesava entre 4 e 11 quilos — do tamanho de um cão. Andava sobre as duas patas, tinha o crânio pequeno e o focinho curto, e é um dos dinossauros mais antigos conhecidos, com idade próxima de 233 milhões de anos.

Sua posição na árvore genealógica ainda gera discussão: alguns estudos o colocam como sauropodomorfo basal, outros como um saurísquio anterior à divisão entre sauropodomorfos e terópodes. Faz parte do processo normal da ciência reconstruir uma árvore evolutiva com fósseis fragmentários de animais muito antigos, e o próprio posicionamento de Saturnalia muda conforme novos dados entram na análise.

Na mesma formação e praticamente a mesma idade, veio uma surpresa maior. Descrito em 2016 por Sérgio Cabreira e colegas, Buriolestes schultzi pesava entre 6 e 15 quilos e tinha dentes finos, serrilhados e curvos — dentário de carnívoro, adaptado a caçar pequenos vertebrados. A descoberta mudou a leitura sobre a dieta ancestral do grupo: sauropodomorfos, terópodes e todos os saurísquios provavelmente começaram carnívoros, e a herbivoria surgiu depois, de forma independente, em diferentes ramos — incluindo o que deu origem aos saurópodes gigantes que vieram muito depois.

O sauropodomorfo mais antigo conhecido

Do outro lado da fronteira, na Formação Ischigualasto, na Argentina, veio Panphagia protos, descrito em 2009 por Ricardo Martínez e Oscar Alcober. Com cerca de 1,3 metro, viveu há aproximadamente 231 milhões de anos e é hoje reconhecido como o sauropodomorfo basal mais antigo da filogenia do grupo. O nome, do grego “que come tudo”, reflete uma dentição que parece de transição entre carnívoro e herbívoro — reforçando, com outro fóssil e outro país, a mesma história que Buriolestes já vinha contando.

O gigante que não deveria existir ainda

Por décadas, a ideia aceita era que o tamanho gigante nos dinossauros surgiu só no Jurássico, dentro do grupo Sauropoda propriamente dito — o dos verdadeiros saurópodes, com ossos pneumáticos e sistema respiratório do tipo aviário. Um estudo de 2018, publicado na Nature Ecology & Evolution por Cecilia Apaldetti, Ricardo Martínez, Ignacio Cerda, Diego Pol e Oscar Alcober, derrubou essa cronologia.

A equipe descreveu Ingentia prima, da Formação Quebrada del Barro, no noroeste argentino, com idade entre 210 e 205 milhões de anos — ainda dentro do Triássico Final. As estimativas colocam o animal entre 8 e 10 metros de comprimento e cerca de 10 toneladas. Junto com o já conhecido Lessemsaurus sauropoides, ele forma o grupo Lessemsauridae, sauropodomorfos que atingiram porte gigante mais de 30 milhões de anos antes do aparecimento dos primeiros verdadeiros saurópodes.

O mais interessante é que chegaram lá por outro caminho. As vértebras cervicais de Ingentia já eram bastante pneumáticas — sinal de um sistema respiratório eficiente, do tipo que as aves usam hoje — e a histologia óssea aponta crescimento acelerado. São os mesmos ingredientes que os verdadeiros saurópodes usariam depois, só que testados antes, e de forma independente, num ramo da família que não deixou descendentes gigantes diretos.

Uma postura que muda ao longo da vida, não só ao longo da evolução

Ainda restava a pergunta de como um bípede como Saturnalia deu origem a um quadrúpede como os saurópodes. A resposta mais completa veio de um estudo de 2019, na Scientific Reports, assinado por Alejandro Otero, Andrew Cuff, Vivian Allen, Lauren Sumner-Rooney, Diego Pol e John Hutchinson, sobre Mussaurus patagonicus, da Argentina.

A descoberta inverteu a expectativa. Filhotes de Mussaurus eram quadrúpedes, e conforme cresciam, tornavam-se bípedes — o oposto do que se supunha para a evolução do grupo como um todo. O fator decisivo não foi o comprimento dos membros, e sim o desenvolvimento da cauda: uma cauda relativamente maior desloca o centro de massa e muda a postura mais eficiente para caminhar. É um lembrete de que o crescimento de um indivíduo e a evolução de uma linhagem inteira nem sempre seguem o mesmo roteiro, e generalizar de um para o outro é um dos erros mais fáceis de cometer em paleontologia.

O sauropodomorfo mais famoso da Europa

Fora da América do Sul, o registro mais estudado é Plateosaurus engelhardti, da Alemanha e da Suíça, do Triássico Final — o Noriano, entre cerca de 214 e 204 milhões de anos atrás. Chegava a 10 metros e é conhecido por dezenas de esqueletos encontrados em depósitos monoespecíficos, como os de Trossingen e Frick, que permitiram estudar seu crescimento em detalhe através da histologia óssea. Diferente de Saturnalia e Buriolestes, já era herbívoro, e sua anatomia mostra a transição em curso rumo ao corpo maior e ao pescoço mais longo que caracterizaria os verdadeiros saurópodes depois.

O que ainda está em aberto

A posição exata de Saturnalia na árvore genealógica segue discutida, entre sauropodomorfo basal e saurísquio anterior à divisão do grupo. A cronologia de quando exatamente a herbivoria se fixou como hábito dominante também não é um ponto único no tempo, e sim um processo que parece ter ocorrido de forma escalonada e, possivelmente, mais de uma vez de modo independente. E o próprio conceito de “sauropodomorfo basal” — o antigo termo informal “prossaurópode” — descreve um grupo parafilético, ou seja, um agrupamento de conveniência para várias linhagens que não formam um grupo evolutivo fechado, e não uma família natural única.

Perguntas frequentes

Qual foi o primeiro sauropodomorfo?

Panphagia protos, da Formação Ischigualasto, na Argentina, com cerca de 231 milhões de anos, é hoje reconhecido como o sauropodomorfo basal mais antigo da filogenia do grupo. Saturnalia tupiniquim, do Brasil, tem idade semelhante, mas sua posição exata na árvore ainda é discutida.

Os primeiros sauropodomorfos comiam carne?

Ao menos um, sim. Buriolestes schultzi tinha dentes serrilhados adaptados à caça de pequenos vertebrados. A descoberta sugere que a herbivoria, marca registrada dos saurópodes, surgiu depois, e não estava presente desde o início do grupo.

O gigantismo nos saurópodes surgiu no Jurássico?

Não exclusivamente. Ingentia prima e Lessemsaurus sauropoides, do Triássico Final argentino, já alcançavam cerca de 10 toneladas mais de 30 milhões de anos antes dos primeiros verdadeiros saurópodes existirem — usando vértebras pneumáticas e crescimento acelerado, os mesmos recursos que os saurópodes usariam depois.

Os primeiros sauropodomorfos andavam em quatro patas?

Não. Saturnalia, Buriolestes e Panphagia eram bípedes. A transição para o quadrupedalismo ocorreu de forma gradual e não seguiu um caminho único — o estudo de Mussaurus mostrou até um caso em que filhotes eram quadrúpedes e os adultos, bípedes.

Existem fósseis de sauropodomorfos no Brasil?

Sim, e entre os mais importantes do mundo para entender a origem do grupo. Saturnalia tupiniquim e Buriolestes schultzi vêm da Formação Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com cerca de 233 milhões de anos.

Fontes científicas consultadas

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