
Evidências de que dinossauros sabiam nadar foram confirmadas por pegadas fósseis preservadas em leitos de antigos rios e lagos. Longe de serem animais restritos exclusivamente ao solo firme, terópodes bípedes entravam em corpos d’água profundos o suficiente para retirar o peso de seus corpos do fundo, impulsionando-se com movimentos alternados das patas traseiras.
A comprovação não veio de ossos articulados, mas da icnologia, o campo da paleontologia dedicado ao estudo de vestígios e pegadas. Em vez das impressões plantares completas deixadas por um animal caminhando em terra, os pesquisadores encontram trilhas formadas apenas pelas pontas das garras, organizadas em sulcos ondulados e paralelos.
O que são as pistas de natação fossilizadas
Quando um animal bípede pesado entra na água funda, o empuxo reduz a carga exercida sobre o sedimento. O corpo passa a flutuar parcialmente, permitindo que apenas os dígitos mais longos alcancem a lama do leito aquático.
Esses registros recebem a classificação de pegadas subaquáticas. Diferente de um rastro comum de caminhada, onde o calcanhar e as almofadas dos dedos afundam de maneira uniforme, as pistas aquáticas revelam ranhuras em formato de vírgula ou marcas lineares duplas e triplas. O dinossauro esticava a pata para trás a fim de gerar propulsão, e as pontas das unhas raspavam superficialmente o fundo lodoso antes de o membro iniciar o próximo ciclo de remada.
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As descobertas na Bacia de Cameros e em Utah
Uma das evidências mais detalhadas desse comportamento foi descrita na Formação Enciso, situada na Bacia de Cameros, na Espanha. O rastro fóssil, datado do Cretáceo Inferior com cerca de 125 milhões de anos, preservou uma sequência de sulcos deixados por um grande terópode ao longo de quinze metros de extensão.
A análise dessas marcas revelou que o animal avançava contra uma correnteza fluvial ativa. As raspagens eram assimétricas: o predador precisava exercer força compensatória com a pata direita para corrigir a trajetória e manter o alinhamento corporal enquanto nadava. Cada passada aquática cobria quase dois metros e meio de distância, sugerindo uma técnica de propulsão vigorosa e ritmada.
Pistas semelhantes já haviam sido identificadas em rochas do Jurássico Inferior no estado de Utah, nos Estados Unidos, no sítio de pegadas de St. George. Ali, trilhas mostram dinossauros menores entrando gradualmente na água: as pegadas completas de passos em solo firme vão se tornando progressivamente mais superficiais até se transformarem apenas em ranhuras isoladas de garras, marcando o instante exato em que o corpo do animal começou a flutuar livremente.
Como era o estilo de nado de um grande predador
A mecânica de locomoção aquática dos terópodes era muito próxima à observada hoje em aves aquáticas que nadam na superfície, como patos e gansos. Os membros posteriores executavam ciclos alternados de flexão e extensão, com a abertura dos três dedos principais maximizando a área de contato contra a água durante o empurrão para trás.
Modelagens biomecânicas indicam que a presença de sacos aéreos no esqueleto facilitava a flutuação natural do tronco. A musculatura potente da base da cauda e das pernas garantia a força motriz necessária para cruzar barreiras aquáticas, canais de maré e rios largos que cortavam as planícies fluviais do Mesozoico. Cruzar corpos d’água a nado não era uma adaptação anatômica especializada, mas uma capacidade física natural exercida sempre que necessário para caçar, fugir ou migrar.
Perguntas frequentes
Todos os dinossauros conseguiam nadar?
A maioria dos animais terrestres de grande porte possui capacidade básica de natação, e com os dinossauros não era diferente. Enquanto terópodes tinham facilidade de flutuação e propulsão com as patas traseiras, animais muito pesados e densos, como anquilosauros com couraças espessas, provavelmente enfrentavam maior instabilidade na água.
Répteis aquáticos como os plesiossauros eram dinossauros nadadores?
Não. Plesiossauros, ictiossauros e mosassauros eram répteis marinhos de linhagens distintas adaptadas integralmente à vida oceânica. Dinossauros formam um grupo próprio e terrestre que apenas utilizava a água de forma ocasional ou semiaquática.
Como os cientistas sabem que as marcas não foram feitas em terra firme?
A morfologia dos sulcos de raspagem é exclusiva da dinâmica subaquática. Em solo seco ou lama exposta, o animal apoia toda a estrutura do pé e transfere seu peso corporal para a pegada, enquanto no leito submerso apenas a curvatura terminal das garras toca o sedimento em ângulos inclinados de propulsão.
Fontes científicas consultadas
- Ezquerra, R., Doublet, S., Costeur, L., Galton, P. M., & Pérez-Lorente, F. (2007). Were non-avian theropod dinosaurs able to swim? Supportive evidence from an Early Cretaceous trackway, Cameros Basin (La Rioja, Spain). Geology, 35(6), 507–510. Disponível em: https://doi.org/10.1130/G23456A.1
- Milner, A. R. C., Lockley, M. G., & Kirkland, J. I. (2006). First report of theropod dinosaur swim tracks from the Lower Jurassic Moenave Formation, St. George, Utah. New Mexico Museum of Natural History and Science Bulletin, 37, 273–281.
- Xing, L., Lockley, M. G., Zhang, J., Klein, H., Persons, W. S., & Dai, H. (2013). A new Early Cretaceous dinosaur track assemblage and the first definite non-avian theropod swim trackway from China. Chinese Science Bulletin, 58(19), 2370–2378. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11434-013-5802-6